RENASCIMENTO E VIDA

Como o encontro com Jesus e com Maria mudaram

completamente

a minha vida

EM CRISTO

Abaixo

alguns capítulos:

PARTE I

RENASCIMENTO EM CRISTO

O início de tudo

​​Sou casada e mãe de dois filhos, um de cinco e o outro de um ano. Quatro anos atrás retirara um tumor na meninge que deu sequência a outras quatro cirurgias num espaço um pouco maior que um ano para fechar um pequeno buraco (fístula) que insistia em abrir no alto da minha testa. Isto acontecia porque um líquido interno amolecia a pele para depois rompê-la. O médico dizia não haver motivo para tanto uma vez que os exames não acusavam inflamação ou infecção.

Foram aqueles primeiros anos dificílimos. Entrei em depressão e acabei encontrando uma terapia que me deu suporte psico-emocional para dar conta do que estava vivendo por meio do autoconhecimento e da abertura do olhar e da consciência para objetivos mais altos para minha vida. Havia uma condição espiritual por detrás da fístula, assim segui com minha vida buscando as transformações e reposicionamentos necessários, enquanto submetia-me ao Grande Tempo Deus.

No curso deste período adveio o forte chamado interior de me tornar terapeuta, difundindo, por minha vez, aos demais, os bens recebidos. Abri consultório, dei início aos trabalhos e tive meu segundo filho ainda que condicionada à situação da fístula. Transcorreram desta forma três anos sem que me submetesse a outra cirurgia.

Tratava diariamente a fístula com limpeza e curativo. Não havia dor física, apenas o desconforto diário de ter que me deparar com o quadro sucessivas vezes em frente ao espelho. Havia um pequeno buraco ósseo feito pelo médico na primeira cirurgia que dava acesso à parte interior do crânio e era possível ver tanto este quanto parte do osso amarelado exposto. Entretanto, o maior desconforto residia na angústia de estar ao mesmo submetida e sem saber até quando. 

Em três anos a pequena fístula cresceu para algo próximo a 1 cm o que passou a me incomodar seriamente. O pensamento que me mantinha afastada do hospital era o “de que adiantaria fazer uma sexta cirurgia se as anteriores não haviam resolvido o problema?

Não tinha o hábito da oração, muito menos intimidade com o Senhor, mas acreditava em Deus. Recordo-me de numa noite ao deitar na cama ser invadida por forte angústia que me fez pedir para Jesus que me ajudasse a resolver aquela situação, pois, “não tinha forças para entrar no hospital pelas minhas próprias pernas” (meu segundo filho estava com 11 meses, era amamentado e não queria separar-me novamente do primeiro nem de nenhum deles).

Eis que, em menos de uma semana, comecei a sentir dor dentro da cabeça e tive febre.

Chorei as angústias e incertezas e fui internada de urgência no hospital com quadro de osteomielite. Deu-se início à antibioticoterapia venosa e passei pela sexta cirurgia.

Só restava buscar a Deus

Diferente das vezes anteriores, desta vez entrei no hospital com uma certeza absoluta de que era Deus quem me curaria, pelo simples fato de que o médico havia feito a parte que lhe cabia tantas vezes e não havia adiantado. Tinha para mim que buscaria o tal Deus onde quer que ele estivesse, sem saber exatamente como, e como única saída. E então, com tempo de sobra, voltei-me inteiramente para Jesus a cada dia da internação.

E ele foi realizando sua obra dentro de mim.

Estava submetida a antibiótico venoso com previsão de alta após 30 dias, quando continuaria o tratamento em casa. Mas, aproximando-se dessa data, a pele amoleceu e se rompeu.

Internada, longe dos meus filhos, esposo e afastada da minha vida - eu permaneceria ali, sem perspectiva de cura. Era evidente que o médico me reteria no hospital para tratamento e observação.

Eu buscava Jesus, estava dedicada a conhecê-lo e pedia aos Céus que me ensinassem a rezar e a ter fé. Foi gracioso ver como Jesus me enviou pessoas e, com elas, livros e coisas que me ajudavam na caminhada e em meu crescimento. Verdadeiras graças celestes eram me dadas diariamente - uma comprovação que acariciava meu coração de que Jesus estava cuidando de mim com muito carinho, mas diante de um fato inequívoco: eu estava sendo fiel a ele. Uma sintonia maravilhosa, nunca antes imaginada ou vivida.

Um dos livros que abriu meu coração de forma incrível ao conhecimento de Cristo, fazendo-me aproximar dele e dos seus interesses foi o "Repousando no Coração do Salvador" (Mensagens de Jesus recebidas por Anne, a apóstola leiga) que recebi por e-mail de uma amiga. Neste Jesus fala a uma beata norte-americana, conduzindo-a a mergulhar em seus sentimentos diante de inúmeras ocorrências individuais de nossa humanidade. Grandiosíssimo se mostrou para mim o seu coração.

Numa tarde, angustiada, fiz uma sincera oração a Jesus. Disse que ia lhe pedir uma coisa muito importante, mas que precisaria da sua ajuda para manter minha promessa posteriormente, pois sabia que seria muito difícil. Pedi-lhe que usasse o tempo que fosse necessário para realizar uma verdadeira transformação dentro de mim e que eu somente saísse do hospital quando estivesse completamente transformada nele.

Naquele momento, minha cura física se apresentou tão pequena e sem importância diante daquele “muito maior’’ que eu intuía e que, por isso mesmo, lhe pedia. Eu não sabia exatamente o que pedia, mas intuía que seria algo grandioso para mim. Confiava e por isso lhe pedia.

 

Uma questão de postura interna

Os dias passavam e a dor da separação dos meus dilacerava meu coração. Duas posturas as quais não me permiti nesta internação foram as de vítima e de me abandonar na depressão. Como vivera as cirurgias anteriores conjugadas à depressão havia comprovado o quanto esta não me ajudara em nada, pelo contrário, derrubara-me ainda mais.

Desta vez fiquei completamente sozinha no hospital. Minha mãe estava com meu bebê, meu outro filho com minha sogra e o esposo trabalhava viajando. Então quem me ajudaria caso eu me entregasse àquelas duas posturas?

Ademais, não queria embotar minha mente com medicação para depressão – preferia dispor dela na normalidade das suas faculdades. Com isto decidi firmar os pés no chão e buscar a Deus como única saída.

 

Encontro pessoal com Deus

Certo dia ao caminhar pelo corredor do hospital para evitar a trombose, orava e conversava com Deus sentindo a amargura da condição assolar meu coração.

Então o questionei: "Por que isto tudo está acontecendo comigo?". Lamentando a dureza da minha provação, voltei a perguntar: "Por que todos estão lá fora gozando suas vidas enquanto eu estou aqui presa neste hospital há semanas?”

Eis que naquele instante vi-me (forçosamente) diante de uma verdade inquestionável: a magnificência de Deus. Deus era tudo. Grandiosíssimo e poderosíssimo. E, ao mesmo tempo, reconheci minha pequeneza: eu era nada, apenas fruto de Sua Criação.

Pela primeira vez, num momento puramente sublime, ajoelhei-me e curvei-me espiritualmente “aos pés” de Deus diante de sua excelsa vontade. Reconheci-a para mim. Entreguei para ele, a fim de que fosse feita a vontade dele e não a minha. Foi um momento difícil.

Havia-me sido dito pouco tempo antes que "o tempo de Deus é diferente do nosso e que, enquanto temos pressa, ele tem para nós a perfeição”. Então, ainda que doesse, eu deveria compreender que a vontade de Deus, seus planos e os resultados que desejava para mim eram infinitamente maiores e melhores do que os meus para mim. Isso me colocou ela primeira vez numa posição de verdadeira submissão, obediência e confiança.

 

Entrega, descansa, confia e agradece

Jesus seguiu colocando-me diante de seus ensinamentos para que os fosse vivenciando.

No hospital há semanas com a fístula drenando, presa ao antibiótico venoso, afastada dos meus e sem perspectiva de alta ou horizonte de cura. Este era meu panorama existencial. Eu pensava o tempo todo, só fazia pensar:

“Reconheço a vontade de Deus para mim, mas mesmo assim é muito difícil. Revoltar? Não adianta. Ficar infeliz? Não resolve a situação. Morrer? Definitivamente não é a solução. Como obter algum alívio? Como suavizar a dor? (se é que era possível?)"

Então alguém trouxe para mim as seguintes palavras:

“Entrega, descansa, confia e agradece.”

Originariamente, elas são assim:

Entrega o teu caminho ao Senhor, confia nele, e ele o fará.” (Salmo 37, 5)

Descansa no Senhor e espera nele.” (Salmo 37, 7)

Meditei por algum tempo sobre essas palavras que me pareciam um tesouro velado.

Então como única solução, entregaria meu grande problema para Jesus e depois ainda descansaria nele...

Quanto alívio este movimento interior me trouxe. A partir daquela hora eu não tinha mais que me desgastar tanto com minha situação porque ela agora estava com o Senhor e eu poderia finalmente descansar. Não me preocupar mais! Então me dei conta do quanto estava cansada, imensamente cansada de lutar, de pensar e de querer resolver. Mas nada daquilo, tudo o que eu tinha que fazer era, literalmente, descansar no colo acolhedor de Jesus...

E teria também de confiar e agradecer.

Tudo ia assim, gradativamente, acontecendo e mudando dentro de mim.

 

Deixai pai, mãe, filho, esposo, irmão... e siga-me

Numa certa altura, para reduzir a dor da perda e da separação dos meus aliada à falta de perspectiva de alta, vi-me obrigada a desligar-me emocionalmente dos filhos e esposo. Era necessário romper com aquele grau de dor para sobrevivência emocional. Juntamente com eles, decidi que havia chegado a hora de me desligar de todos os meus compromissos externos e da minha própria vida. Liguei para todas as pessoas que me aguardavam explicando-lhes o motivo pelo qual estaria ausente não sabendo por quanto tempo. Era doloroso, mas ético. E bem ali, sentada no leito do hospital com o olhar fixo na janela veio-me à mente:

"Deixai pai, mãe, filho, esposo, irmão e siga-me.” 

Naquele instante, forçosamente, a única opção que me restava era voltar-me exclusivamente para Jesus.

Compreendi internamente que todos da minha família na verdade não me pertenciam e estavam sendo temporariamente retirados para me mostrar que me eram emprestados. Nada daquilo eu realmente possuía.

***

Também todos aqueles que tiverem deixado casas, irmãos, irmãs, pai, mãe, filhos ou terras, por causa de meu Nome, receberão cem vezes mais e herdarão a vida eterna.” (Mateus 19:29)

Jesus

Mais de 60 dias se passaram quando meu médico entrou no quarto dizendo que aguardava autorização do convênio para me operar novamente. Em minhas orações somente pedia a Jesus que me curasse e de preferência de forma milagrosa para não ter que passar novamente pela mesa de cirurgia. Levei um susto.  Não era fácil dispor da minha carne outra vez mais para ser operada e viver mais um pós-operatório. Isto sem mencionar a descrença na cura.

“Jesus, eu não sei mais o que queres de mim. Eu já abri mão de tudo: família, esposo, filhos, casa e vida. Já não tenho mais nada na minha vida. O que mais queres de mim?”

Então escutei dentro de mim:

“Você ainda não Me entregou o seu desejo de ser curada."

Nesta altura compreendi que eu já havia entregado tudo a Jesus, exceto minha vontade de ser curada.

“Mas como assim, Jesus?”. No hospital aprendi a conversar assim com Jesus, como se estivesse diante de um Grande e Bom Amigo. Continuei:

“Se eu Te entregar a minha vontade de ser curada, então não terei mais nada na vida. Porque isso é hoje tudo o que tenho.” 

Compreendi de imediato que agarrava-me  à minha cura como se fosse minha tábua de salvação, ou seja, se Deus me desse a cura teria toda minha vida de volta.

Mas Jesus queria que eu Lhe entregasse o meu desejo de ser curada. Momento difícil. Respirei fundo e fiz. Estava de olhos fechados.

Eis que, de súbito, perdi a sensação do chão tocando meus joelhos e tudo ao redor ficou preto. No breu, a única percepção que tinha era de existir sob forma de consciência e todas as referências do que era minha vida caíram por terra. Pensei:

“E agora? O que é que eu sou mesmo? Tudo que eu achava que antes era, não é mais, e ainda assim me percebo viva somente em estado de consciência...”

Eis que surgiram na minha frente duas mãos douradas. Sabia que eram de Jesus.

Dei-Lhe minhas mãos e Ele disse:

Entregue a Mim todas as suas vontades e deixa que Eu queira as coisas por você.”

Olhe para os seus pés.”

Ao voltar-me para meus pés, uma surpresa: eu não tinha pés. Era um ponto de luz branca.

Olhe para Mim.”

Ele era uma luz dourada diante de mim cujas mãos que saiam para fora seguravam nas minhas.

Durante todo momento Ele movimentava seus dedos polegares carinhosamente sobre minhas mãos - como que para eu discernir que aquilo não era imaginação.

Olhe para baixo.

Voltei o olhar para baixo e outra surpresa: vi o planeta Terra.

Disse:

“Você é, na verdade, isso aqui que está vendo” (um ponto de luz no espaço diante Dele e nada mais).

Existe aquela também” (fez-me voltar os olhos para o planeta e tive a percepção de mim pisando na Terra enfrentando todas aquelas lutas).

Essa aqui é a verdadeira você e quero que você siga a Mim e Me divulgue para os demais”.

Suas últimas palavras me surpreenderam e senti medo e o pensamento que me ocorreu foi que aquilo mudava completamente minha forma de viver minha vida. Jesus era real e mudava TUDO. Tudo o que antes eu achava que era não era mais e eu deveria viver para Ele.

Minha alta aconteceu com 85 dias de internação e no dia do meu aniversário e eu soube intimamente que Jesus queria marcar o meu renascimento Nele para uma nova vida com Ele.

Este momento repercutiu seriamente dentro de mim quanto à figura de Jesus Cristo e da minha vida. Ele se mostrou real e isso me fez repensar meus problemas, questões e minha própria vida e ele ainda  se colocou acima e prioritário a tudo.

​Onde estão as outras pessoas, Senhor?

Na caminhada seguinte pelo corredor, entre orações e monólogos, perguntei-lhe: "Por que nós, na generalidade, não entramos em contato com pessoas que tiveram contato com o Senhor? Tenho certeza que estas pessoas existem e onde elas estão e por que não falam? Sei que não sou a única, então, cadê estas pessoas, Jesus?”

Ele então, tanto fiel quanto zeloso, trouxe nos dias que se seguiram, uma a uma - entre pacientes e acompanhantes, pessoas que haviam tido um momento com ele e/ou com Maria Santíssima totalizando cinco além de mim.

Minha cruz para Jesus

Recebi a notícia que minha cirurgia seria adiada por mais uma semana, o que totalizaria dez.

Ao realizar outra caminhada entre orações sentindo amargura no coração de saudades dos meus filhos, não suportei e me queixei para Jesus dizendo que estava doendo demais e difícil de dar conta.

Então veio-me à mente:

"Entregue sua cruz para Jesus.”

Estranhando, perguntei:

"Como assim lhe entregar a minha cruz? Como é que se faz isto? Eu nunca fiz isto antes...” Encontrava-me diante de algo novo, original e que, ao mesmo tempo, deveria ser algo bom, além de interessante.

Reuni toda minha dor e entreguei-a como num “grande pacote” ao Senhor dizendo:

"Aí está, Senhor, carrega para mim porque sinceramente não estou dando conta mais.”

Acabara de descobrir não apenas que tinha uma cruz, mas do quê ela era constituída... e ainda a entregara ao Senhor! Como Jesus era bom e amigo...

O que se seguiu em mim foi uma sensação real de esvaziamento, alívio. Pensei:

"Bem, se agora não tenho mais toda aquela dor para carregar, o que vou fazer?”

A resposta:

“Simplesmente caminhe. Caminhe ao lado do Senhor enquanto ele carrega sua cruz para você.”

Fiquei desfrutando daquele estado interior.

***

No dia seguinte, despertei no leito do hospital com uma sensação grande de leveza, imensa paz, profundo sentimento de alegria, amor e (para minha surpresa) gratidão. Era maravilhoso. Compreendi como sendo a sensação de se estar em estado de graça. Pensei:

“Estranho... era para eu estar me sentindo diferente de como de fato estou, pois, sentir-me assim não combina com o fato de estar a tantos dias no hospital. Há algo diferente acontecendo, algo que desconheço e o que devo fazer então dos meus dias aqui?”

A resposta:

 "Agora que Jesus está se ocupando das suas coisas, você está livre para se ocupar das coisas dele.”

Jesus me ensinara a lhe entregar as minhas questões e conflitos, a aguardar e a confiar nele de tal modo que minha mente, tempo e coração estavam completamente livres para me dedicar inteiramente aos interesses dele. E tudo isso dentro de um hospital.

 

Seu Instrumento

Naquela altura, Jesus já trazia a mim pacientes e acompanhantes para receberem o testemunho, serem escutados e acolhidos.

Lembro-me da surpresa num certo dia ao dar-me conta de que possuía uma ‘agenda diária’ cheia com as ocupações do Cristo, entre demandas, compromissos, imprevistos e orações. Não sobrava tempo para mim ou para atender a tantos quanto gostaria. Era algo nunca antes vivido e eu chegava ao final do dia cansada, mas com o coração cheio de júbilo. Trabalhava para o Senhor e aquilo me deixava em estado de graça!

"Venham para mim todos vós que estais cansados de carregar o peso de seu fardo, e eu lhe darei descanso, carreguem minha carga, aprendam de mim, porque sou manso e humilde de coração, e vocês encontrarão descanso para suas vidas, porque meu jugo é suave, o meu peso é leve." (Mateus 11, 28).

Cheguei também a dar-me conta de que, ao mesmo tempo em que Jesus retirara de mim os meus familiares consanguíneos, me apresentara (forçosamente) minha verdadeira família fraternal: equipes do hospital, pacientes e acompanhantes - e ainda me colocara a serviço da mesma. Tudo com muita naturalidade e mansidão.

A riqueza de pacientes (mais de 20) e acompanhantes que passaram pelo meu quarto de enfermaria abriu meu coração de tal forma para a compaixão pela enfermidade e dor humana, e também para aceitar com naturalidade as diferenças pessoais, desconfortos e inconvenientes. Adquiri mais humildade e sentimento de igualdade e fraternidade.

Cada paciente que ali entrou trazido a mim pelas mãos de Deus ajudou-me de alguma forma e enriqueceu minha caminhada.

Nunca mais voltaria a ser a mesma de antes. Plano Perfeito de Deus.

Outro registro de grande importância é que eu estava a maior parte do tempo sem acompanhantes familiares e assim pude (forçosamente, mais uma vez) internalizar verdadeiramente em mim mesma dia após dia, aproximando-me de Cristo.

Por diversas vezes ainda me referirei ao Plano Perfeito de Deus que é infinitamente maior e melhor do que o meu para mim. Para tanto, ainda que na hora doa, aprendi que sempre poderia confiar no que ele deseja para mim.

 

Aproximação de Nossa Senhora

Uma paciente que dividia a enfermaria comigo acordou certa manhã dizendo que sonhara comigo a noite inteira e no sonho fora-lhe dito que eu “receberia as graças que tanto queria”. Achei aquilo tão belo e interessante, acolhi agradecendo, mas no fundo permaneci receosa, afinal havia cinco anos que pedia a Deus pela minha cura e nada.

Ela falou que o dia de Ação de Graças estava chegando e na sua alta estendeu-me carinhosamente seu pingente de Nossa Senhora das Graças. Eu não conhecia esta Santa Maria ainda que houvesse sido batizada e crismada. Era não-praticante.

Tão logo deixou o quarto me recordei de um livreto que alguém deixara ao lado do meu leito logo no início da minha internação e que nunca havia interessado em ler. Naquele instante tive certeza que se referia a Nossa Senhora das Graças.

Por certo. Tratava-se de suas aparições à Santa Catarina e da confecção da medalha milagrosa. No final, diversos testemunhos no Brasil de graças recebidas nas mais diversas áreas incluindo a saúde. Achei bonito, mas distante da minha realidade.

“Imagine eu, recebendo a cura de Maria?" - pensei. Depois compreendi que não o havia lido antes, pois não me encontrava pronta para receber seu conteúdo.

Mas a hora havia chegado. Voltei-me para ela e com toda reverência, amor e ardor a aceitei como minha Mãe. Entreguei para seu grandiosíssimo e puríssimo coração a mim, meus filhos e esposo e todas as angústias de mãe e de mulher que me assolavam.

Graças de Nossa Senhora

Após a cirurgia fui deixada no CTI sentindo muita dor na cabeça e da sonda urinária. Antevendo que passaria a noite em claro sentindo forte dor na cabeça ainda que medicada, tal como nas vezes anteriores, iniciei com fervor a “Ave Maria” e a dor era tamanha que não conseguia recordar das palavras seguintes, repetindo:

“Ave Maria, cheia de Graça; Ave Maria, cheia de Graça...”

Então enxerguei no alto do meu leito uma luminosidade e dela caindo sobre meu corpo pontinhos de luz azulado-branco-dourado. Fiquei encantada.

E lá estava Ela de pé ao meu lado esquerdo.

Tinha o véu azul claro com branco, cabelos castanhos e as mãos em posição de oração como que velando por mim deitada naquele leito. Disse:

"Eu sou a Mãe Santíssima.” (Não conhecia essa denominação de Nossa Senhora)

Detive-me a contemplar aquela maravilha. Então notei acima dos meus olhos, sobre a testa (local da cirurgia) um forte feixe de luz azul-branco que descia do alto. 

Maria disse:

Receba, Luciana, as graças dos Céus que lhe são devidas.”

Naquele estado de profundo júbilo, pensei:

“Que coisa maravilhosa! Posso então passar a noite inteira em oração sendo útil aos demais mesmo de um leito de hospital... Como Deus é Bom e Magnânimo…”

Comecei a orar e de repente dei-me conta de que era Dia de Ação de Graças (27 de novembro) e que Ela estava concedendo-me Graças.

Nossa Senhora em seguida mostrou o planeta e que Graças (pontinhos de luz azulado-branco-dourado) estavam naquele momento sendo derramadas em várias partes do mesmo. Eu ia agradecendo, pois sentia o quanto Ela era Generosíssima e Belíssima.

Ela disse:

“Você alcançou essas graças e está curada. Muitos oraram por você. Perceba as orações que foram a Mim endereçadas em suas intenções.”

Eu as percebi e eram muitas. Chamou-me atenção a quantidade vinda de pessoas que eu conhecera naquele tão curto período de internação e com quem eu havia construído um laço de afeto e auxílio mútuo sob o Evangelho de Cristo.

Acrescentou:

“Muitas almas desconhecidas foram salvas por meio das suas orações, quando você orou para que chegassem luz e graças aos que estavam no purgatório.”

Seguia com as visualizações contemplando-as em êxtase e imenso júbilo. Enquanto eu pedia pelas múltiplas necessidades humanas no planeta, Maria fez-me visualizar minhas orações alcançando naquele momento mulheres (muitas se despertando para não mais oferecerem seus corpos e sim os cobrirem) e homens (muitos se despertando para respeitarem as mulheres, freando em definitivo os abusos).

Disse:

“Essas Graças são alcançadas por meio de oração.”

Segui orando pelas crianças, mulheres grávidas, abortos, pessoas com depressão, enfermos, viciados, governantes... E pensei: “Se soubesse o quanto era importante, teria orado ainda mais nestes últimos dois meses e meio de hospital.”

Permaneci durante tanto tempo recebendo Graças que confesso que até me incomodou um pouco, pois chegou num ponto em que senti que estava recebendo além do que merecia. Minha percepção foi do quanto os Céus eram Pródigos e Generosos em dar-nos Graças. Comprovava quão Misericordiosos eram - Bons, Piedosos e Generosos que ao começarem a nos dar Graças não apenas nos dão, mas derramam-nas em abundância.

 

Confiando desconfiando

Mas, diante do Grande, eis nossa pequeneza e imperfeição. Desejo ser o mais leal possível aos meus sentimentos de outrora:

Quando Maria disse que eu estava curada confesso que na hora duvidei. Duvidei de Maria! Vivenciara aquela expectativa há tantos anos, de pedir a cura e ela nunca ter chegado...

Omiti esta fala de Maria em meus testemunhos durante os dois meses de pós-operatório, que era o período no qual a pele normalmente se rompia, pois ainda assolava-me o medo. Para contrapô-lo, afirmava para mim mesma que Maria havia me curado e lhe agradecia.

Somente passados dois meses e feita a tomografia que comprovou a cura internalizei-a melhor e me permiti relaxar.

Quis com isto manifestar a que ponto chega nossa incredulidade, o quanto acreditamos desconfiando e que o caminho da fé é uma construção. Do nada ao pouco e do pouco ao muito.

​Novamente Jesus

Enquanto rendia graças aos Céus em oração, senti minha mente se expandir. Quanto mais se expandia, mais a sentia ‘saindo do meu corpo' e as dores físicas reduzindo até desaparecerem por completo.

Foi quando escutei dentro de mim uma voz:

"Confie em mim." Sabia que era Jesus.

Minha mente seguiu se expandindo até se situar no espaço (universo) e tive a percepção da sua infinitude. Então, quando minha mente conseguiu abarcar aquela dimensão de infinitude, Jesus fez aquele espaço se ampliar muitíssimo mais, mostrando-me que havia mais para além do que minha mente havia conseguido abarcar. Quando finalmente minha mente deu conta de assimilar aquela nova dimensão de infinitude, ele a fez novamente se ampliar muitíssimo mais, e seguiu fazendo sucessivas vezes e cada vez de forma mais acelerada.

Com aquilo, soube ele queria me mostrar o quanto Deus é Grande, que tudo aquilo é sua Criação e o quanto eu podia confiar nele.

A verdade é que eu estava tensa e, de repente, ouvi o apito do aparelho que monitora as batidas do coração: “piiiiiiiiiiiiii...”

“Voltei” assustada para o meu corpo e implorei para Jesus que não estava pronta para ter uma parada cardíaca*. Por estar plenamente consciente, pensei na repercussão médica de uma parada cardíaca em mim e que poderia comprometer no tempo de saída do CTI e mesmo do hospital.

Instantaneamente me dei conta que estava querendo impor minha vontade sobre a dele, mas a verdade era que estava com bastante medo e não ia dar conta. Pedi-lhe desculpas, o aparelho retomou o barulho regular e não voltou a disparar mais. Minha mente queria continuar expandindo e eu, tensa, fiquei tentando controlar para que ela expandisse somente até o ponto no qual eu ainda conseguisse sentir meu corpo deitado naquele leito.

Sentia-me imensamente feliz por poder passar a noite com Jesus. 

E ele me mostrou outras coisas.

Antes de internar, tinha avidez por compreender como Jesus podia usar um sofrimento meu a ele oferecido voluntariamente para salvar almas. Desejava entender como que o 'oferecimento de um sofrimento' se conectava com a 'salvação de uma alma'  sendo ambos aparentemente tão distantes e diferentes um do outro.

Para minha surpresa, Jesus disse que ia me explicar como o sofrimento que lhe entrego era usado para salvar almas. Disse que quando alguém sofre na Terra está na verdade caminhando até Deus por meio da dor e que desta forma era possível se chegar ao 'grande amor' dentro do coração. E que esse grande amor é que se une ao Grande Amor de Deus. De modo que o sofrimento e a dor são na verdade AMOR, estão dentro do AMOR. Por isso que muitos eram salvos mediante o sofrimento meu entregue a ele. Disse também que o meu sofrimento representava para ele o sofrimento de muitos.

Em seguida, senti uma “turbulência” real em meu leito. Ele disse que eram trovões e vi que havia começado uma chuva torrencial numa outra dimensão escurecida. A chuva caía sobre muitas pessoas que estavam deitadas e lamacentas. Elas se levantavam molhadas, limpas pela chuva e empreendiam uma caminhada adentrando em solo firme na direção de um feixe alargado de luz branca que descia do alto, no qual iam sendo resgatadas por anjos.

Ele disse:

“Isso é o que acontece quando você ora para os que estão no purgatório. São resgatados e salvos.”**

Eu estava em profundo júbilo por estar em sua presença.

Ele disse:

“Você está no CTI descansando em mim.”

Eu encontrava-me ali literalmente com o corpo físico deitado e recuperando-me.

Disse:

“Você vai sair deste descanso em mim e vai retomar a sua vida, porém comigo.”

Eu percebia meu corpo físico acamado e via que ele, Jesus, retinha meu corpo espiritual deitado numa maca e velava ao meu lado enquanto passava as mãos suavemente sobre meu corpo, como que dizendo: “Está tudo bem, fique quietinha, repousando, eu estou aqui." Mostrava-me que "reteria tanto meu corpo espiritual como o físico descansando nele”.

Estava fisicamente em êxtase e espiritualmente em completo júbilo, pois havia me encontrado finalmente com o Senhor. Enquanto ele dizia para eu descansar, meu espírito estava acamado junto a ele querendo retê-lo desesperadamente à vista, com um sorriso que mal me cabia e mexendo os pés ansiosamente, pois me sentia pronta para a qualquer momento saltar da maca e começar a servi-lo.

Naquele estado jubiloso do meu espírito compreendi mais uma vez o quanto era interessante e novo o fato de eu me encontrar num leito de pós-operatório vivendo tudo aquilo fisicamente, mas com a alma alegre, leve e ainda por cima, adorando-o.

Jesus então mencionou a palavra ‘consagração’.

Eu não sabia o significado desta palavra, sabia apenas que relacionava ao cristianismo. Pensei que não podia  estar imaginando aquilo tudo, pois jamais falaria para mim aquela palavra e tão logo que possível a consultaria no dicionário.

Ele disse:

“Você vai me entregar um novo sofrimento, um que até então não entregou.”

Eu lhe entregaria uma nova dor.

Mostrou-me meus dois filhos. Em seguida, mostrou o mais velho já rapaz. Fiquei encantada. Busquei o mais novo, pois queria vê-lo rapaz também até que o “achei”. Meu coração se alegrou. Eram meus dois filhos muitíssimos amados e fontes da minha mais recente preocupação: a evangelização.

Jesus então mostrou meu esposo, ateu veemente (em todas as oportunidades em que havia tentado semear em meus filhos algo a respeito de Deus, ele as havia lançado por terra, o que me entristecia).

Disse:

“A dor que permitirei a seu esposo viver por meio do seu sacrifício pessoal em permanecer mais tempo no hospital, afastada dos seus por tempo indeterminado, fará com que ele aceite Deus. E isso salvará sua alma e a dos seus filhos, pois serão evangelizados.”

Jesus, naquele momento, me colocava diante de mim mesma para que eu escolhesse se estaria disposta a sacrificar a mim pela conversão do esposo.

Meu coração doeu muitíssimo, pois o que mais desejava era sair do hospital para reaver meus filhos e, diante de uma situação como aquela, teria de pegar fôlego para seguir ali por tempo indeterminado, sem horizonte. Aquilo doeria fundo na minha alma. Constituía enorme sacrifício.

Detive minha atenção por alguns instantes no esposo e senti grande amor. Conclui que ele merecia, no altar do meu coração, conhecer Deus tal como eu estava conhecendo.

Jesus abriu um sorriso. Disse:

“Em meu coração você me faz felicíssimo por esse gesto. Eu não esperava de você nada diferente disto que está me mostrando.”

Compreendi que mediante um sacrifício pessoal meu, entregue a ele, teria os meus três queridos salvos, no caminho do Senhor.***

Assim, eu desfrutava extasiada sua presença, que era apenas espiritual. Meu desejo era de ajoelhar-me diante dele, mas não podia nem fisicamente nem em espírito.

Meu coração transbordava de júbilo enquanto via uma luz dourada muitíssimo forte sobre mim. Fiquei contemplando-a extasiada enquanto agradecia emocionada. Lágrimas escorriam abundantemente dos meus olhos físicos.

Eu lhe disse:

“Jesus, que bom que finalmente o encontrei. Agora ficou claro para mim toda minha trajetória nesta vida, principalmente a busca insaciável e incansável da minha alma por algo a mais, que me preenchesse. Mas eu não sabia que afinal buscava era a ti. Agora tudo faz sentido.”

Compreendi, naquele momento, que era realmente preciso querê-lo muito para encontrá-lo. Eu o havia querido a minha vida toda, mas não tinha consciência disto! Que bom que ele havia tido misericórdia e viera até mim. 

Naquele momento reconhecia também a enorme fome e sede que eu tinha de Jesus e das coisas dele.

Implorei:

“Agora que o encontrei, por favor, não me deixe perdê-lo jamais. Este é o único desejo do meu espírito para todo o sempre.”

Ele respondeu:

“Assim como você me foi fiel durante todos esses dias no hospital, eu lhe serei fiel e não a abandonarei mais.” ****

Difícil descrever o que senti. Estava em completo êxtase espiritual, pois Jesus era tão belo e generoso e tudo o que ele quer é que o queiramos e o busquemos.

Foi impressionante a força majestosa que ele exerceu sobre meu espírito. Senti uma necessidade imperiosa de me curvar diante dele e reverenciá-lo, adorá-lo e louvá-lo de todo o meu coração.

Eu era dele para todo o sempre.

Nota de rodapé:

*Recordei de uma acompanhante que havia sofrido um infarto – no qual tivera um encontro com Nossa Senhora - e que devido ao sofrimento hospitalar temia sofrê-lo novamente.

** O que me ocorre ao escrever estas linhas é quão sério e digno de ser meditado e colocado em prática pelo maior número de pessoas possível é a oração às almas que se encontram no purgatório.

***Após a alta e de volta ao lar compreendi que a grande dor e o grande sacrifício que aceitara oferecer a Cristo constituía em consagrar minha vida conjugal e familiar pela conversão do esposo e de toda a família.

****Desde o início da internação assumira um compromisso com Jesus de ler num mesmo dia e horário da semana em voz alta um livro que tratava ao seu respeito independente do paciente e acompanhante que estivessem no outro leito e minha internação durou 85 dias.

Mais graças de Maria

No dia seguinte tive alta para a enfermaria.  Observava o movimento dos enfermeiros, médicos, da outra paciente e conversava com minha acompanhante* quando me dei conta que enxergava uma sobreposição de imagem onde via o manto azul de Nossa Senhora. Fechei os olhos e lá estava, numa nitidez incrível, jamais vista com olhos normais, e num tom azul escuro com delicados detalhes em dourado. Detive-me em pura contemplação. 

A partir desta imagem foram surgindo outras e outras como em uma sucessão de slides: rosas solitárias ou reunidas nas cores vermelhas ou brancas, pessoas idosas, adultas e crianças, homens e mulheres, sozinhos ou em grupos, vestidos ou desnudos, pérolas, estátuas e mantos de Nossa Senhora. Imagens com movimento ou estáticas. Sempre se recomeçava com uma que em seguida era transmutada para outra, quando então se trocava a imagem. Permaneci a maior parte do tempo possível de olhos fechados, pois não queria perdê-las.

Para meu regozijo, elas acompanharam-me até a hora de dormir e também durante todo o dia seguinte.

Em determinado momento ouvi uma voz dentro de mim em alto som como que transmitida por microfone. Uma voz de puríssima feminilidade. Era de Maria.

Noutro momento vi uma imagem espelhada em tempo real de um dos lados do meu rosto no qual uma mãozinha de bebê fazia carinho na minha bochecha. Até olhei para minha bochecha de verdade a fim de conferir, mas não nada vi. Fiquei emocionada.

A partir do segundo dia passei a escutar ininterruptamente em minha mente uma música lindíssima (que depois descobri ser “Ave Maria de Gounod”) que me acompanhou nos dias seguintes.

Passado aquele período e meditando sobre toda aquela riqueza, conclui que Maria me apresentara um pouco do seu coração – e como este era tenro, feminino, delicado e ao mesmo tempo forte e puro.

 

Algo a mais sobre Maria

Algo que me tocou profundamente é que inicialmente eu não buscava Maria, estava focada exclusivamente em Cristo. Foi ela mesma quem veio ao meu encontro para que eu me voltasse para ela e lhe pedisse graças, evidenciando seu bondosíssimo e generosíssimo coração.

Maria quer distribuir graças e muitas vezes nós é que não lhe pedimos. Em sua história e aparição, Santa Catarina conta que viu sair de suas mãos espessos raios de luz, mas em determinados pontos os raios eram finos e Maria disse-lhe que aqueles últimos eram graças que ela queria distribuir para as pessoas, mas estas não lhe pediam. Quanta compaixão (A verdadeira história da Medalha Milagrosa).

 A minha vontade e a vontade de Deus

Passados três dias da cirurgia, consegui ir sozinha até o banheiro e me olhei no espelho. Levantei o curativo e mal dei conta do susto. O médico havia retirado todo o osso da minha testa, restando apenas as sobrancelhas. Fechei os olhos resistindo a acreditar. Me ocorreu o quanto Deus estava sendo cruel comigo e quão duro ele era. Permaneci ali durante um bom tempo e chorei.

Esperava após aquela cirurgia sair do hospital sem vias de retorno, curada em definitivo e pronta para retomar as diversas particularidades da minha vida com a devida liberdade emocional, física e espiritual daquele difícil trecho da minha vida. 

Chorei expurgando toda dor. Não desejava ser consolada pois só eu sabia o que me ia dentro. Eu mesma deveria sangrá-la até porque havia o desapontamento de seguir presa àquela situação por mais tanto tempo até o momento da colocação da prótese onde haveria de sofrer novamente a dor na minha carne. Até lá eu deveria reunir fôlego para viver tudo o que tivesse que ser vivido.

Na minha mente apenas questionamentos. “O que mais Deus quer de mim? Eu já sofri bastante”. Sentia-me como se houvesse recebido um duro golpe de Deus - que, outra vez mais, me derrubava no chão.

Acolhi meu próprio sofrimento e nas horas seguintes me vi espiritualmente caída no chão de bruços com força apenas para respirar. Dizia a Jesus que estava apenas respirando, pois não conseguia me levantar.

***

Ainda acordada no início da noite fui especialmente amparada pelos Céus. Senti-me anestesiada na cabeça e no corpo todo por mais de uma hora sem conseguir me mexer. Visualizava uma luz de cor verde claro e sabia que esta representava cura e saúde.

Apenas neste pós-operatório fui muito abençoada pelos Céus. Sentia por diversos momentos uma sensação de anestesia na testa e sabia que estava sendo espiritualmente tratada. Nunca havia vivenciado um processo de cicatrização tão rápido, pleno e sem qualquer inchaço. A cicatrização se completou rapidamente, repuxando e assentando a pele. Sentia quando estava sob efeito das anestesias celestes. As trocas dos curativos e a primeira lavagem da cicatriz pelos enfermeiros não doeram, apenas senti pressão no local manipulado. 

***

No dia seguinte decidi abandonar aquela postura espiritual e busquei aproximar-me de Jesus. Encontrei-o espiritualmente sentado numa pedra. Arrastei meu corpo espiritual e deitei meu rosto sobre um de seus pés. Deixei-me ali ficar. Bem aos poucos fui me permitindo renovar meu conteúdo interior e curá-lo. Disse-lhe que, mais uma vez, lhe entregaria meu sofrimento para que o carregasse para mim.

O que se seguiu foi que gradativamente ergui meu espírito junto a ele até que ele me levantou por completo e recomecei a dar meus primeiros passos por ele amparada.

Recordei-me do sacrifício sacrossanto que havia entregado a ele no sentido daquela ser a vontade de Deus para mim: de ainda não ter aquela página da minha vida virada. Então eu me curvaria novamente diante de seus desígnios e confiaria.

Não sabia como, mas sabia que ele guiaria meus passos fora do hospital para dentro da minha própria vida com meus filhos, esposo, parentes, pós-operatório, profissão, pressões externas e como enfrentar e esconder socialmente a imperfeição da testa. Tudo aquilo se apresentou para mim isento de qualquer dor. Eu não precisava mais me pré-ocupar, pois estavam todos a ele entregues e tudo que tinha que fazer era avançar.

Foi assim que tudo mudou de ângulo. Concebi o uso de um lenço na testa e tudo o mais de uma vida absolutamente normal. Alegria, paz, fé, confiança, o sorriso e a palavra de Jesus retornaram a mim chamando atenção dos que me cercavam.

***

Meu desejo por meio desta passagem é sinalizar que às vezes lutamos e lutamos, e quando achamos que não temos mais força para lutar e que as lutas vão finalmente ser encerradas e vamos enfim poder descansar, Deus vem e diz:

“Tsc, tsc, tsc! Ainda não acabou para você. Quero que você estenda mais um pouco sua caminhada, pois meus planos para você ainda não terminaram: levanta e vai.”

Foi isto o que me coube fazer: enxergar, aceitar, reunir mais fôlego, confiar e voltar a caminhar. Mas não sozinha, com Deus.

***

Já no período de licença médica aguardando a cirurgia da prótese o que me ocorria era quão perfeitos são seus planos para mim.

Que tudo sempre “concorre para o bem daqueles que amam a Deus.” (Romanos 8,28).

Não poderia haver existido outra melhor forma de me manter quietinha dentro do meu casulo em concentração, crescimento e fidelização a ele e às suas causas. Por isto aceitava, obedecia e agradecia.

E como já me era possível colher frutos daquele formoso processo de interiorização, a pergunta que dentro em mim ressoava era:

“Como não aumentar ainda mais minha confiança nele?”

 

Meu renascimento em Cristo

Com 85 dias de internação, minha alta estava prevista para um sábado. Compreendia a complexidade do término do meu período hospitalar dado meu histórico e por estar sendo assistida por uma equipe multidisciplinar (de neurocirurgia e endocrinologia por causa do antibiótico). Meu aniversário seria na quarta-feira e havia com minha família planejado comemorá-lo com bolo e tudo o mais.

Eis que na manhã do meu aniversário meu médico entrou no quarto dando-me alta. Perplexa e muito feliz compreendi instantaneamente que era Jesus me mostrando o seu poder na minha vida.  Que para ele, tirar-me do hospital alguns dias antes do previsto pelos médicos era facílimo, pois ele tudo podia.

Além disto ao fazê-lo no dia do meu aniversário soube também que ele queria marcar simbolicamente e de forma indelével o meu renascimento nele para uma nova vida com ele.

Jesus, o centro da minha vida

Já não planejo mais para mim, quem o faz é o Senhor

Pouco antes da alta, em uma visita, minha irmã perguntou o que eu pretendia fazer após sair do hospital. Uma pergunta simples, rotineira. Mas, naquele momento, tudo dentro de mim paralisou.

“Como assim, o que eu pretendo fazer quando sair do hospital?” - pensei. No fundo do meu ser eu não pretendia nada mais para mim no futuro, mas deixava que Jesus pretendesse para mim e me mostrasse o que era para eu fazer.

Havia algo muito sério transformado dentro de mim. Eu não planejaria nada mais para mim, mas me colocaria inteiramente nas mãos do Senhor.

E como explicar aquilo para minha irmã, naquele grau de profundidade? Impossível naquele momento, talvez noutro. Optei por dar-lhe uma resposta superficial e fugaz.

***

Semanas depois ao fazer meu diário espiritual após a leitura da Bíblia, no momento em que internalizava a compreensão de que era para Jesus ser o centro e o único dono e Senhor da minha vida e nada mais, tive a percepção sublime de que, mais uma vez, ele alçava-me da Terra e suspendia-me, eu perdia o chão e ascendia aos Céus, ficando tudo para trás...

Remeteu-me àquele mesmo momento na capela do hospital.

Jesus renovava em mim, de forma diferente, o desligamento de todas as coisas mundanas para que nenhuma delas me dirigisse mais, mas apenas ele.

Autossuficiência e Deus

Ainda no hospital certa vez deparei-me com um algo inegável:

Até então eu era autossuficiente nas coisas da minha vida, era eu quem resolvia e controlava tudo aquilo que dizia respeito a minha pessoa. Nada mais natural, pois desta forma havia sido criada.

Eis que veio Deus me mostrar que não era bem eu a autoridade máxima da minha vida, mas ele. Ele era a autoridade suprema sobre todas as coisas e também o deveria ser nas minhas.

Senti-me confusa, afinal, como poderia manter minha autossuficiência e ao mesmo submeter tudo de mim a Deus? Não havia como. Ademais entendi que caso submetesse meu tudo a Deus me transformaria numa daquelas pessoas sem autonomia própria a quem a vida leva de um lado para outro ao sabor das circunstâncias - e como é que se vive no mundo desta forma?

Tais pensamentos eram muito sérios e, logicamente, além de me confundirem, me assustaram. Eu não possuía nenhuma referência humana de como seria viver daquela forma.

Detive a pensar na maioria das pessoas naquela velha tentativa de nos comparar aos demais para tirarmos deles uma referência e todas que conhecia também se colocavam na vida de forma autossuficiente, afinal todas haviam sido criadas para isso.

Compreendi então que era exatamente pelo fato de se acharem autossuficientes que as pessoas se encontravam tão afastadas de Deus. Afinal de contas, para que se precisa de Deus quando já se é o próprio deus de si mesmo?

Percebi o quanto somos criados culturalmente pela sociedade para servirmos ao mundo e não a Deus.

E o que acontece depois?

Vem a vida e mostra para a pessoa que ela na verdade não controla aquilo tudo que achava que controlava. O mundo desmorona sobre sua cabeça e a pessoa imerge num mar de sofrimentos. E tudo simplesmente porque se estava vivendo uma ilusão de si mesmo e de Deus e quem lhe batia forte era a realidade:  

A realidade de que Deus é tudo e que cada um sem ele é nada – E tudo isto apenas para que as peças voltem a se encaixar.

Deus tirou de mim o engano da autossuficiência para que compreendesse que a ele devia submeter todas as questões da minha vida. E antes que se possa pensar, isto não me tornou uma pessoa desleixada, pelo contrário, reajustou-me para realizar minhas coisas sempre com o olhar fixo nele, em seus desígnios e vontade, e colocando da minha parte primor e responsabilidade.

Ao passar a conduzir-me desta forma notei que comecei a me diferir das pessoas que me circundavam e isto desencadeou em mim forte sofrimento. Isto se devia ao fato de eu haver escolhido o caminho do Senhor enquanto eles não.

Esta mudança em meu interior somente foi possível porque fui dócil a Deus e lhe permiti abrindo-lhe espaço.

Porque para renascer para o novo é preciso morrer para o velho.

Porque para renascer para Deus é preciso morrer para o mundo.

***

“Digo-lhes verdadeiramente que, se o grão de trigo não cair na terra e não morrer, continuará ele só. Mas se morrer, dará muito fruto.” (João 12.24).

A caminhada para Deus é toda uma renovação de paradigma.

Jesus me salvou

Uma passagem Bíblica que me tocou profundamente foi esta:

Dez leprosos foram ao encontro de Jesus e lhe pediram a cura. Uma vez curados todos foram embora exceto um que a ele retornou e Jesus perguntou:

Todos os dez foram purificados, não foram? Então, onde estão os outros nove? Nenhum deles voltou para dar glória a Deus, a não ser este homem de outra nação?” (Lucas 17, 17-18)

A pessoa que me contou esta parábola disse que Jesus age sobre muitos e os cura, mas nem todos o reconhecem, por isso não são por ele salvos. Acrescentou que eu havia sido não apenas curada, mas também salva porque havia me curvado a ele, me interessado por ele, o aceitado e decidido segui-lo.

Mas Jesus está igualmente para todos. O que diferencia é o que cada um faz diante da verdade que é Cristo. Tive a graça de finalmente conhecê-lo, mas por meio da dor e da doença. Cada um possui seus momentos de ouvir os chamados internos ou de serem sacudidos tal como eu fui.

Penso que a grande dificuldade de encontrarmos Jesus deve-se ao fato de estarmos confusos e perambulando pelo mundo absorvidos pelo mesmo somado ao fato de o considerarmos uma ideia ou fantasia e não como uma Divindade real que traz o único caminho certo e seguro. Acrescenta-se a isto a ignorância de como fazê-lo assim como o descrédito nos resultados.

 

Cristo me levou até o deserto

Já fora do hospital, entrei em contato com uma mensagem de Jesus no Congresso Internacional de Renovação Carismática Católica, em 1974, que me impressionou:

Dias de trevas virão para o mundo, dias de tribulação... Os apoios que existem para meu povo não mais existirão. Quero que estejam preparados, povo meu, para conhecer apenas a mim e para ter-me de modo mais profundo do que nunca.  Levarei vocês ao deserto...  Tirarei tudo aquilo de que dependem agora, para que dependam só de mim.” (A Bíblia no meu dia a dia)

Jesus havia feito exatamente aquilo comigo. Levara-me ao deserto e me tirara tudo o que possuía, ou melhor, que achava que possuía. Fez-me voltar exclusivamente para ele e aceitá-lo como único Salvador, Dono e Senhor da minha vida e a ele entregar meu tudo.

 

No hospital nasceu um livro

Logo no princípio da internação, diante das primeiras claridades internas desta caminhada para Cristo, senti grande necessidade de registrá-las em um caderno. Sabia que havia iniciado uma marcha que me cresceria diariamente e desejava registrá-la. Ocorreu-me que um livro poderia ser escrito relatando a trajetória que intuía que seria grandiosa para mim e da mesma forma para muitos. Poderia por meio deste levar muitos comigo. Percorrer sozinha um caminho desta natureza faz vibrar o espírito, mas cria uma dor permanente pela ausência dos demais.

Mas eu havia sido internada de urgência somente com a roupa do corpo, de modo que até papel para fazer os registros diários era difícil. Pensei num caderno, mas não cheguei a pedir para ninguém. Comecei a anotar em folhas de guardanapo.  

Numa questão de dias uma querida copeira entrou no quarto anunciando que havia trazido um presente enviado por sua filha de oito anos. Ela havia se compadecido da minha situação, falara para sua filha e esta me enviara um caderno seu.

Jesus, que certamente plantara aquele sentimento no meu coração e notava meu total acolhimento, colocava naquele momento sobre minhas mãos um caderno novo em folha. Com alegria o recebi, abraçando a copeira e agradecendo. Foi assim que pude iniciar os registros à medida que eles iam acontecendo, sendo-lhes o mais fiel possível.

 

Continua...

PARTE II

VIDA EM CRISTO

O livro havia sido finalizado com um início, meio e fim e intitulado “Renascimento em Cristo” quando senti em meu coração o desejo ardente e inesquivável de inserir outros conteúdos.

Mas estes outros se inseririam noutro contexto que não o de um “Renascimento em Cristo”, mas o de uma “Vida em Cristo”.

O formato do novo título tal como se encontra “se desenhou” em minha mente.

Os planos de Jesus são grandes e impossíveis de serem abarcados pela minha mente e coração e, sendo esta obra sua, segui prestando-lhe meus serviços emobediência, tenacidade e confiança.

O que senti no coração é que virá em auxílio de muitas pessoas em diferentes níveis de fé e religiosidade.

Transcrevo abaixo os pensamentos tais como fluíram em minha mente:

“Aos que se encontram afastados e adormecidos;

Aos que se encontram despertos, porém afastados;

Aos que se encontram despertos e já no caminho;

E a todos aqueles que desejem uma união mais profunda com Cristo.”

 

Considerações prévias

O desejo de Jesus de conduzir minha vontade para que escrevesse novas linhas constitui por si um testemunho vivo de que a partir do momento que aceito, o obedeço e o permito, ele o faz.

Logicamente invadiu-me grande medo, afinal, com quais méritos e condições poderia escrever sobre algo tão sério, profundo e de tamanha responsabilidade sendo apenas uma recém-chegada a tão sublime desiderato?

Tão logo fui confortada interiormente com os pensamentos de que “era do desejo de Cristo que eu acrescentasse mais conteúdo à obra e que ele me conduziria por tal caminho para que o descrevesse, cabendo a mim apenas confiar”.

Posto isto, como estagnar-me na dúvida, negação ou medo? Como não me curvar a sua excelsa vontade e seguir adiante?

Era de uma beleza sem precedentes enxergar Jesus trabalhando paulatinamente dentro de mim, conduzindo os caminhos das minhas experiências, entendimentos e sentimentos para que conhecesse suas Grandes Verdades.

Para que Estas pudessem ser reveladas e, uma vez conhecidas, seguidas por muitos.

O que fiz foi manter-me fiel diariamente buscando-o, louvando-o e servindo aos seus interesses, atendendo às oportunas inspirações por busca de conhecimentos, mantendo a leitura da Bíblia e a confecção do diário espiritual, cultivando a oração e a vigilância interior. Acima de tudo, conciliando suas demandas com as minhas pessoais que, a esta altura, já estavam pertencendo a ele também.

Continua...

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