Identificando as investidas de satanás na mente

Foi através do padre Marcelo Rossi e da leitura da Bíblia que aprendi que o mal, satanás, é artificioso e ousado. Que Deus o permite agir, mas por tempo determinado - nem mais nem menos - e que ele se submete. E recordemos que ao final a vitória já a tem Cristo.

Foi-lhe dada a faculdade de proferir arrogâncias e blasfêmias, e foi-lhe dado o poder de agir por quarenta e dois meses.” (Apocalipse 13, 5)

É exatamente por isto que satanás faz o que quer, do jeito que quer, quando, aonde e com quem quer. Não há limites para ele. Começa ousadamente, na surdina, e vai do pouco ao muito, ao abuso do mal até a pessoa ficar completamente subjugada.

Mas não que se deva temê-lo, antes conhecê-lo. Conhecer o inimigo é o primeiro passo para a defesa pessoal.

Seu objetivo é causar a desordem e a destruição e usa da sedução, do engano e da mistificação até chegar à opressão dominadora.

Qual deve ser então a postura pessoal diante do mesmo?

Não o subestimar. Ele existe e está sempre a espreitar. Vigiá-lo nas invasões à própria mente e na mente das pessoas que conosco convivem. Muitas vezes satanás querendo atacar a mim e me derrubar usa as pessoas com quem convivo e cujas mentes estão desprotegidas. Logo, a atenção deve ser redobrada aos ataques pessoais, às ofensas e discórdias.

Já me referi que quanto mais sintonizada encontro-me com o Alto e suas questões mais fácil é identificar os ataques do maligno na mente e nos sentimentos.

Alguns pensamentos podemos ter certeza que não vêm de Cristo, mas dele e são os de temor, culpa, dúvida, melindre, inferioridade, autodepreciação, preguiça e postergação.

Além daqueles outros que já sabemos como o egoísmo, raiva, inveja, ciúme, soberba, indiferença, ambição, etc.

Muitos não enxergam que estão sob a influência de Satanás, mas não há motivos para os cristãos verdadeiros desconhecerem as táticas dele.” (2 Coríntios 2, 11)

Diante de tais pensamentos o que se deve fazer é elevar o pensamento a Deus, pedindo-lhe ajuda ou entrando em oração. 

A dieta mental nos assuntos celestes é por si fator protetor.

O mal sempre existiu e durante um bom tempo existirá. Deve-se caminhar vencendo-o diariamente, renovando dia-pós-dia as próprias promessas e escolha por Jesus.

Esta é a ocasião para a constância e a confiança dos santos!” (Apocalipse 13, 10)

 

PARTE II

VIDA EM CRISTO

 

 

Considerações primeiras

 

O livro havia sido finalizado com um início, meio e fim e intitulado Renascimento em Cristo quando senti em meu coração o desejo ardente e inesquivável de inserir outros conteúdos.

Mas estes outros se inseririam noutro contexto que não o de um Renascimento em Cristo, mas o de uma Vida em Cristo.

O formato do novo título tal como se encontra “se desenhou” em minha mente.

Os planos de Jesus são grandes e impossíveis de serem alcançados pela minha mente e coração e, sendo esta obra sua, segui prestando-lhe meus serviços em obediência, tenacidade e confiança.

O que senti no coração é que viria em auxílio de muitas pessoas em diferentes níveis de fé e religiosidade.

Transcrevo abaixo os pensamentos tais como fluíram em minha mente:

Aos que se encontram afastados e adormecidos;

Aos que se encontram despertos, porém afastados;

Aos que se encontram despertos e já no caminho;

E a todos aqueles que desejem uma união mais profunda com Cristo.

 

Considerações segundas

O desejo de Jesus de conduzir minha vontade para que escrevesse novas linhas constitui por si um testemunho vivo de que a partir do momento que aceito, o obedeço e o permito, ele o faz.

Logicamente que me vi invadida de grande medo, afinal, com quais méritos e condições poderia escrever sobre algo tão sério, profundo e de tamanha responsabilidade sendo apenas uma recém-chegada a tão sublime desiderato?

Tão logo fui confortada interiormente com os pensamentos de que “era do desejo de Cristo que eu acrescentasse mais conteúdo à obra e que ele me conduziria por tal caminho para que o descrevesse, cabendo a mim apenas confiar”.

Isto posto, como estagnar-me na dúvida, negação ou medo? Como não me curvar à sua excelsa vontade e seguir adiante?

Era de uma beleza sem precedentes enxergar Jesus trabalhando paulatinamente dentro de mim, conduzindo os caminhos das minhas vivências, entendimento e sentimentos para que conhecesse suas Grandes Verdades.

Para que as mesmas pudessem ser reveladas e, uma vez conhecidas, seguidas por muitos.

O que fiz foi manter-me fiel diariamente buscando-o, louvando-o e servindo aos seus interesses, atendendo às oportunas inspirações pela busca de conhecimentos, mantendo a leitura da Bíblia e a realização do diário espiritual, cultivando a oração e a vigilância interior. Acima de tudo, conciliando suas demandas com as minhas pessoais que a esta altura já estavam pertencendo a ele também.

 

Vivendo no tempo eterno

Conforme se caminha as compreensões se modificam e junto a elas a percepção da vida. 

Uma delas foi passar a viver meus dias e realizar as ocupações rotineiras acompanhada da percepção do tempo eterno e que sou uma alma eterna. Ou seja, da transitoriedade e brevidade desta minha vida.

Com a promessa de Cristo da vida eterna, passei a conceber minha vida como uma passagem temporária na qual devia focar em viver e difundir seu Reino na Terra - condição pela qual colheria os louros ao final em seus braços. Não me estranhou passar a perceber-me temporariamente por aqui e simultaneamente com ele na eternidade - este processo era certamente conduzido por ele.

Esta nova percepção passou a exercer tão poderosa força que me sustentava, movia e defendia para manter uma conduta pessoal e social ajustada unicamente ao Reino de Deus, reoferecendo-lhe meu “sim” momento pós momento independente do julgamento dos homens.

 

Num relacionamento com Deus

Por ser Deus tão grande, poderoso e escapar das nossas melhores intenções de tentar compreendê-lo, entendi que a única forma possível a mim de estabelecer uma conexão com ele seria através da .

Ou seja, a única maneira possível de eu estabelecer um relacionamento com Deus seria entrando da minha parte com a fé. Mas fé em quê?

Em seu poder, magnificência e nas promessas do seu Reino.

Portanto, neste relacionamento eu deveria entrar com a minha fé e aceitar que Deus entrasse com tudo o mais.

Ora, sem fé é impossível agradar a Deus, pois para se chegar a Ele é necessário que se creia primeiro que Ele existe e que se recompensa os que o procuraram.” (Hebreus 11, 6)

Este elemento tão abstrato é de uma força incrível e é o que me permitia reconhecer seu poder sobre tudo quanto há e sobre mim mesma. Reconhecer-me pequena e parte da sua criação é o que fazia ser possível submeter meu tudo a ele.

Os grandes mártires somente conseguiram realizar grandes feitos, pois moveram-se guiados exclusivamente pela fé nas promessas e nada mais:

Pela fé Noé, divinamente avisado das coisas que ainda não se viam, temeu e, para salvação da sua família, preparou a arca, pela qual condenou o mundo, e foi feito herdeiro da justiça que é segundo a fé.” (Hebreus 11,7)

Pela fé Abraão, sendo chamado, obedeceu, indo para um lugar que havia de receber por herança; e saiu, sem saber para onde ia.” (Hebreus 11, 8)

 

A fé como fio condutor que me liga a Deus

De repente a percepção que me veio foi que Jesus, que já havia me “desprendido do chão do mundo” outras vezes, apresentava-me que eu não me encontrava “solta no ar”, mas sustentada apenas por um fio condutor que me unia a Deus.

Este fio era a fé e eu não necessitaria de nada mais.

 

Cristo é o elo que nos liga a Deus

Antes da vinda de Jesus existia a humanidade e Deus. Deus com sua criação e mistérios e a humanidade com mais difíceis meios para conhecê-lo, decodificá-lo e aproximar-se dele.

Então o Pai enviou-nos seu Filho, Jesus, personificação dos seus mistérios e da sua vontade, para decodificar para nós o seu Reino.

Jesus veio mostrar-nos como é viver para Deus e não para o mundo.

É através de seu exemplo vivo, de homem que caminhou pela terra, que iremos até o Pai.

Por isto ele se revela como o caminho, a verdade e a vida.

Eu sou o caminho, a verdade e a vida. Ninguém vem ao Pai, a não ser por mim.” (João 14, 6)

Você não crê que eu estou no Pai e que o Pai está em mim? As palavras que eu lhes digo não são apenas minhas. Pelo contrário, o Pai, que vive em mim, está realizando a sua obra. Creiam em mim quando digo que estou no Pai e que o Pai está em mim; ou pelo menos creiam por causa das mesmas obras.” (João 14, 10-11)

O caminho, a verdade e a vida

Ilustrando-me em Jesus, conhecendo sua trajetória e feitos na Terra aprendia o que devia fazer para da mesma forma unir-me ao Pai:

Ele viveu em comunhão com os Céus, sustentando-se pela oração;

Viveu da fé em Deus e em seu Reino;

Viveu para obedecer à vontade do Pai e não à sua própria;

Viveu para agradar a Deus e não ao mundo;

Viveu para servir aos homens e não a si mesmo;

Viveu para ensinar e exemplificar o amor e a caridade;

E sacrificou-se por todos, por amor.

 

Intercessor meu junto a Deus

Deus, em seu excelso poder e magnificência, concedeu a cada um de nós, criaturas imperfeitas e falíveis, um valoroso intercessor de nossas causas.

À Jesus foi confiada a responsabilidade, os cuidados e a salvação de cada uma de nossas almas.

É por isto que a ele devemos recorrer ante nossas miserabilidades - fraquezas e pecados - confiando que o prestimoso Filho intercederá por nós diante da vontade e da misericórdia do Pai.

Foi Cristo Jesus que morreu; e mais, que ressuscitou e está à direita de Deus e também intercede por nós.” (Romanos 8, 34)

"Porque há um só Deus e um só Mediador entre Deus e os homens, Jesus Cristo homem. O qual se deu a Si mesmo em preço de redenção por todos nós, para servir de testemunho a seu tempo."(I Timóteo 2, 5)

 

Viver da fé e tudo ou nada

Sendo Jesus o elo que me liga a Deus e o intercessor entre mim e Deus, devia me confiar a ele e manter meu foco nele.

Neste processo todo resto mundano serviria para me distrair, confundir, me fazer duvidar, fraquejar e até sucumbir tal como aconteceu a Pedro, seu apóstolo:

Numa bela passagem os discípulos estão em um pequeno barco sob águas revoltas e vento forte, quando veem Jesus de longe andando por sobre as águas em sua direção. Ele chama Pedro para unir-se a ele. Este inicia a caminhada sustentado apenas pela fé com os olhos fixos em Cristo até que se distrai com o vento, sente medo e cai dentro das águas. Aproxima-se Jesus e lhe diz:

 “Homem de pouca fé, por que duvidaste?” (Mateus, 31)

Somente seria a mim possível caminhar exclusivamente o caminho do Senhor e que o Senhor caminhou até o Pai se eu mantivesse o foco em Cristo. Para tanto, minha fé tinha que aumentar, se expandir até se apoiar exclusivamente nele.

Passar a viver da fé a exemplo dos grandes mártires e santos e de nada mais iria requerer muita valentia e o convite de Jesus não era nada menos do que este. Ou eu abraçava esta fé em condição de tudo-ou-nada e nela me ancorava, permitindo que ela me sustentasse e guiasse, ou viveria níveis diferentes de fé e de entrega - sendo unicamente dado a mim escolher.

Assim foi encontrar-me em espírito diante de uma grandessíssima oportunidade na Terra. Oportunidade que o que tinha de grande, tinha de difícil. Mas nisto entrava Deus mostrando-me que não era impossível. Que se tantos outros haviam feito por que eu não faria?

Os ganhos para minha alma eterna no Reino de Deus seriam proporcionais ao nível que alcançasse de entrega e realização. 

 

Penetrando no descanso de Deus

Quando passei a entregar todas as minhas vontades ao Senhor, já não planejava mais para mim e o tinha como único centro da minha vida, valendo-me apenas da minha fé, da certeza absoluta da providência divina e de obedecer àquilo que o Pai oferecia para mim, de bom ou de “ruim”(porque, ao final, nada é ruim aos olhos de Deus) - percebi mudar uma percepção.

Senti-me penetrar em seu descanso.

E ao descansar nele vivenciei uma paz profunda e vivificadora. Encontrara Deus num nível mais profundo. E nele descansava.

Encontrara paz, sua vontade, minha obediência, minha fé absoluta e minha total submissão. Tal qual Cristo.

Compreendi que podia viver as mais diversas e penosas lutas na carne e ainda assim estar descansando em Deus e em sua paz absoluta*.

Um repouso verdadeiramente sagrado da alma que verdadeiramente se entregou a Deus.

Enquanto, pois, subsiste a promessa de entrar no seu descanso, tenhamos cuidado em que ninguém de nós corra o risco de ser excluído.” (Hebreus 4, 1)

Nós, porém, se tivermos fé, haveremos de entrar no descanso.” (Hebreus 4, 3)

Nota:

*Tal como comprovei em algumas experiências posteriores.

 

Abandonando-me em Cristo

Pelo fato de sentir uma confiança absoluta em Cristo e de me curvar e aceitar que ele sabe o que é melhor para mim, passei como consequência natural a submeter a ele todas as questões da minha vida (por menores que fossem) incluindo meus pensamentos, sentimentos, vontades e a condução dos meus passos.

Passei a viver em uma posição permanente de louvor, gratidão, submissão e obediência junto a uma profunda entrega espiritual e alegria.

A ele devia e confiava tudo. Permitia que me preenchesse.

Abandonava-me nele, mantendo meus olhos nele fixos.

***

Algumas vezes assustei por perceber-me pensando de um jeito tão diferente de pouco tempo antes. A impressão que tinha era que enlouquecera de vez, pois tudo havia virado ao avesso. “Como assim, submeter eu toda a Jesus o tempo todo?”

Então num relâmpago de lucidez compreendi que era exatamente pelo fato de a grandíssima parte das pessoas no mundo desconhecerem o que era viver para Deus, unindo-se e confiando-se inteiramente a Jesus que tudo o que estava acontecendo comigo me parecia tão divergente. Somavam-se a isto os fatos de eu não possuir nenhuma referência humana e ninguém nunca haver me ensinado.

Afinal tudo se tratava de um renascimento para uma nova vida totalmente adversa da que levava antes.

Era porque é preciso morrer para a vida anterior para se poder nascer e viver na nova.

E morrer doía, desconstruir doía, nascer doía, reconstruir doía e tudo confundia.

Mas ao mesmo tempo era maravilhoso sentir que a parte de mim que participava deste processo era a espiritual que felicíssima finalmente se ajustava a Cristo.

A única coisa com a qual devem se preocupar é em orientar sempre sua vontade para Mim. Necessito agora que muitos de vocês se voltem para Mim no abandono. Vocês dirão ‘sim’ ao seu Jesus? Olhem para Meu corpo na cruz, e lembrem-se que seu Jesus disse ‘sim’ para sua salvação. Vocês são amados, meus queridos. Não tenham medo. Confiem em mim.” (Pensamento sobre Espiritualidade, p.109)

 

Em comunhão permanente com Cristo

Enxergando Jesus até nas panelas

De repente passei a viver meus dias com os pensamentos permanentemente em Jesus. Pensava nele em todas as coisas que fazia, inclusive nas mundanas. Enquanto fazia as coisas também o via simultaneamente em minha frente com os “olhos da mente”, além de sentir sua presença acompanhando-me (não como um fantasma, mas como quando fazemos algo com uma pessoa ao lado).

Fui percebendo isso aos poucos. Comecei a notar nas vezes que saía de casa e parava para conversar com alguma pessoa. Ao dar-lhe atenção via “mentalmente”’ Jesus na minha frente. Era como se de repente me lembrasse de Cristo, o que me fazia perguntar-lhe se havia algo que poderia fazer para aquela pessoa que fosse da sua vontade. O que se dava era que não era mais eu ali com meus assuntos e interesses pessoais, mas sua serva à sua disposição.

Daí passei a tê-lo presente em tudo que fazia (em pensamento, imagem e presença) de manhã, de tarde, de noite e até de madrugada naqueles breves despertares.

Mas o que era aquilo de tê-lo presente o tempo todo como se o buscasse, recordasse e desejasse a cada respiração?

Pareceu-me como uma obsessão. Estaria obcecada por Jesus? Enlouquecera? “Descolara-me” de tal forma do mundo que só sabia enxergar ele?

Recordei-me da querida agente da pastoral no hospital que se referiu à santa Teresa de Ávila dizendo que “por tanto adorar Jesus o via até nas panelas”. Mesmo sem entender aquilo fixou-se na minha memória.

E eis que minha amiga devota vem para derramar um bálsamo nesta minha questão. Aquilo que eu achava que era obsessão era na verdade um estado de comunhão permanente com Cristo, significando que eu já não sabia mais viver sem ele e me encontrava permanentemente em oração para com ele.

Jesus veio e disse: “Vassula*, quero que rezes sem cessar”.

Vassula, assustada, disse: “Mas, Senhor, isso é impossível, porque eu tenho uma família e, por isso, não posso ficar o dia todo rezando; eu não posso rezar continuamente”.

E Jesus, com uma pontada de humor, lhe disse: “Ah! Vassula, como Eu tenho pena de você, você não entendeu nada. Rezar sem cessar, não quer dizer que você deva estar 24 horas de joelhos. Rezar sem cessar significa quando o teu coração passar a Me desejar o dia inteiro, quando o teu coração tiver sede de Mim, quando o teu coração ansiar por Mim o dia inteiro. É ter sede de Mim, teu Deus. É amares-Me com todo o teu coração, com toda a tua mente; porque, se tu o fizeres, se Me amares, a tua alma torna-se sedenta de Deus. Não apenas por dois minutos, mas durante todo o dia”. (A Verdadeira Vida em Deus, mensagem de, p.)

Meses depois, escutei na rádio um padre referir que, da mesma forma como uma pessoa apaixonada pensa no ser amado durante todo o dia, a cada atividade e ansiando por sua presença, assim também acontecia quando se apaixonava por Jesus.

Nota:

*Neste livro Jesus pede a cada um que substitua o nome “Vassula” pelo próprio de modo a receber suas mensagens diretamente para si.

 

Diante da presença Santa de Jesus

A “presença” continuada de Jesus fazia-me estar prontamente vigilante em minha postura moral diante de tudo o que me acontecia, afinal encontrava-me diante dele e como abstrair de lhe oferecer o meu melhor comportamento?

Como exemplo cito as vezes não quais, prestes a perder a paciência com meus filhos recordava-me da presença de Jesus e envergonhada, mudava minha conduta atuando com amor e tolerância.

Em outras, não vigilante, faltava com alguém e arrependida num nível profundo pedia desculpas para Jesus seguindo para reabilitar-me moralmente com quem havia errado.

Descobri serem estas umas das formas pelas quais Cristo vem ao nosso auxílio favorecendo-nos em nossa santificação.

 

Evangelizando as ovelhas para entregá-las ao Senhor

Desde a saída do hospital dediquei-me com fidelidade a testemunhar os momentos que tive com Jesus e Maria colocando-me à disposição do Senhor para que me trouxesse pessoas.

Era impressionante a quantidade entre conhecidos e desconhecidos dentro do meu estreito círculo social. Pensava proporcionalmente na enorme quantidade que escapava do meu raio de alcance e que da mesma forma Jesus desejava se aproximar e fazer-se visto. Tal percepção me era bastante dolorosa.

Diz Jesus:

Sois verdadeiros servos num tempo durante o qual Eu tenho muitos inimigos, poucos amigos e um imenso trabalho a fazer.” (Jesus fala aos seus apóstolos, p.23)

Iniciei oferecendo às pessoas apenas os testemunhos. Aos poucos notei-as abrindo-me seus problemas particulares sem que houvesse pedido. Passei a escutar-lhes caridosamente e quando dei conta estava oferecendo aquilo que já havia incorporado na minha vida do Evangelho e de uma vida em união com os Céus.

Mas à medida que estas pessoas retornavam para suas casas me via em sofrimento pela incapacidade de continuar auxiliando lhes no caminho de união com Cristo. Porque havia tanto mais a ser-lhes dito.

***

Foi dentro do meu lar que vivi uma das mais felizes situações.

Tão logo retornara do hospital dera início em meu lar à uma oração seguida da leitura de uma parte do Evangelho em voz alta num mesmo dia e horário da semana. Havia sido um compromisso assumido com Deus desde então e eu o mantinha mesmo quando as crianças estavam acordadas.

Num dado dia coincidiu da pessoa que limpava minha casa estar presente e ao invés de cancelar a convidei para se unir a mim. Ela aceitou prontamente e seguimos trilhando nossa caminhada espiritual.

Vi-a aos poucos despertar para esta nova vida em Deus com a presença de Jesus e de Maria. Vi-a receber as primeiras graças de Maria, a despertar a fé, aprimorar a forma de orar, escutar pela primeira vez a voz do Espírito Santo dentro de si e começar a colocar-se como instrumento de Deus na vida dos demais. Conduzia-a por um caminho de evangelização e de uma verdadeira vida em Cristo.

Em meu coração começou a despontar uma dor por não haver outras pessoas participando daqueles preciosos momentos. Intuí que uma nova componente se adicionaria ao nosso grupo e na semana seguinte minha ajudante, não podendo comparecer presencialmente, se fez pelo vídeo do celular trazendo sua mãe.

***

Ao fazer o diário espiritual fui invadida por forte sentimento, como um desafogo do meu espírito: eu desejava ardentemente começar a evangelizar as pessoas em maior proporção.

Não me bastava mais testemunhar Cristo e Maria para as pessoas e depois deixá-las só sem saberem como e por onde começar a percorrerem tal caminho de união com os Céus. Era necessário ensinar, conduzir, inspirar e servir de amparo e exemplo.

Naquele momento Jesus inseriu dentro de mim uma necessidade ardente de conduzir as pessoas pelas mãos sendo-lhes guia. Ocorreu-me as palavras “guia espiritual”.

Uma imagem fez-se em minha mente: “Eu, uma pastora, conduzindo um pequenino rebanho por um campo verde até alcançar um rebanho enorme cujo pastor era Jesus. Então meu pequeno rebanho uniu-se ao dele e senti a sensação de dever cumprido.”

Sob estranheza, pensei: “Que ousadia, achar-me uma pastora de Jesus!”

Voltei a ele meu coração e lhe perguntei humildemente:

“Posso considerar-me uma pastora de ti, Senhor?”

O que se revelou dentro de mim foi que o propósito era que eu fosse assemelhando-me à Cristo de modo que já não seria mais eu, mas Cristo quem viveria em mim.

***

Foi assim que aquele singelo compromisso semanal com Deus se elevou em meu coração a um grupo de oração e evangelização - instrumento pelo qual poderia auxiliar almas a se despertarem, renascerem e viverem uma vida em Cristo.

O compromisso que tinha de evangelizar a mim mesma ganhara maior responsabilidade, pois passaria a evangelizar a mim para poder evangelizar os demais. Longe de me assustar soou ainda mais estimulante.

 

Unindo minha vontade a dele

Jesus é manso e a partir dos meus sucessivos “sins” vai trabalhando sobre minha vontade gradativamente.

Primeiro desperta em mim um sentimento novo, algo nobre e o faz crescer de forma vigorosa até o ponto de eu lhe implorar que me dê aquela oportunidade de servi-lo.

A ponto de eu não saber mais se era eu que lhe pedia ou se era ele que pedia a si mesmo através de mim. Na verdade, isto pouco importava.

No exemplo dado anteriormente eu não buscava a vontade dele para realizá-la em mim, mas ele mesmo fez com que minha vontade se unisse a dele.

Dessa mesma forma e mansamente ia percebendo a união de outras vontades minhas a dele de modo que aos poucos íamos nos tornando uma só vontade, uma só pessoa.

 

Já não sou eu, mas Cristo que vive em mim

Passei a viver as demandas do meu dia com meu pensamento posto nele, buscando-o ardentemente;

Seguia comungando com ele nos pensamentos, sentimentos, dores e lutas ao longo do dia;

Passei a sofrer por aquilo que o fazia sofrer;

Entregava-me a ele diariamente, abandonando-me nele;

Buscava a sua vontade naquilo que vivia;

Notava sua vontade se unindo a minha;

Colocava-me ao seu inteiro dispor;

Permitia que ele me preenchesse.

O que estava se dando era gradativamente uma união com Cristo.

O mesmo havia acontecido com o apóstolo Paulo que disse:

Eu vivo, mas já não sou eu, é Cristo que vive em mim.” (Gálatas 2, 20)

 

Vencendo o mundo

Ao parar para pensar em como havia passado a viver meus dias, com o olhar tão fixo nos Céus e nas promessas de Deus para mim e fazendo opções minuto pós minuto em prol dessa escolha compreendi que era exatamente essa a árdua luta a qual todo verdadeiro cristão seria chamado a viver:

A luta para vencer o mundo diariamente escolhendo os Céus.

Entendi que essa era a forma na qual provaria para Deus que havia passado pelo mundo sem haver pertencido a ele.

Haveria passado por todos seus atrativos, distrações e paixões e o vencido.

Uma vez vencido o mundo, haveria provado para Deus que escolhera ele e o seu Reino ainda que pisando na Terra. Necessitaria ele de prova maior?

Em um relacionamento com Maria

Nesta altura a presença e fidelidade de Maria se faziam tão evidentes em meus passos que me faziam entender que me encontrava dentro de um relacionamento com ela.

Uma vez que lhe apresentava minhas questões e a percebia agir, passei a pedir-lhe em intenção de outras pessoas, vendo-a da mesma forma agir em seus corações, mentes e vidas com tamanha graciosidade.

Pedia-lhe graças ou para despertar-lhes a fé, que abrisse o caminho em seus corações para receberem os testemunhos e as coisas que pertenciam aos Céus. Foram inúmeros os testemunhos das ações de Maria operadas neste sentido dentro e fora da minha família.

Com a irmã da minha ajudante que se encontrava em depressão, vícios e com um filho adolescente envolvido com drogas, comecei a pedir-lhe a cura e libertação. Aos poucos ela saiu da prostração, procurou e conseguiu emprego e um dia disse à irmã que estava com vontade de fazer uma coisa que nunca havia pensado fazer que era acender uma vela e rezar para Nossa Senhora Aparecida.

Eu havia passado a pedir a Maria em oração com ardor no coração que a trouxesse até mim para que pudesse evangelizá-la, compreendendo que somente por meio desta e da caminhada no Senhor é que lhe seria possível alcançar a cura e libertação em definitivo. Maria vinha tocando-a e ela vinha expressando o desejo de unir-se a nós no momento da oração e evangelização, mas isto não chegou a acontecer por não conseguir emprego próximo. Segui curvando ao tempo e à vontade do Pai, aguardando nele em oração e colocando-me ao seu inteiro dispor para outras demandas.

Essa era uma das graças de Maria que iam transformando meu coração. De maneira que já não sabia se era eu que lhe pedia ou se era ela que o pedia por mim ou até mesmo Jesus. Já não sabia a quem pertencia aquela vontade, mas sim que estava alinhada com a vontade de Deus para todos nós que é de colocarmos em prática o amor, a caridade e a fraternidade.

 

Que outras mulheres se relacionem com Maria

Foi igualmente aos poucos que me vi pedindo-lhe que me trouxesse almas de mulheres para que lhes oferecesse seus testemunhos em minha vida e as aproximassem da fé, unindo-as à sua doce e excelsa presença e amparo. Para que elas pudessem tal como eu:

Conhecê-la, buscar seu colo e contar com sua ajuda para suas questões femininas e existenciais, iniciando com ela um relacionamento mais íntimo e por fim terem suas vidas transformadas.

Porque Maria é nossa Mãe e compreende, se compadece e auxilia em todas as tribulações pelas quais passa o coração feminino.

E ela foi trazendo-me almas de mulheres com a graciosidade somente dela.

 

Parceria com Maria para levar almas para Jesus

Numa noite ao rezar o Terço despontou em meu coração o desejo ardente de fazer a Maria um pedido:

Que ela trouxesse até mim as almas que quisesse e eu faria a parte que me cabia de testemunhar, evangelizar, despertar-lhes a fé servindo-lhes de suporte e exemplo de uma vida em Deus e colocando-as em íntima união com ela.

E que ela, além de trazê-las até mim, fizesse a parte que lhe cabia de preparar-lhes os corações para receber de mim os conteúdos e que lhes oferecesse graças.

E que assim juntas entregaríamos almas nos braços de Jesus.

“Querida Mãe,

Traga para mim almas

para que eu possa voltá-las para ti e

para que, juntas, possamos entregá-las

ao nosso querido Jesus.

Amém.”

Quem plantara aquilo em meu coração fora certamente a própria Maria. Curvei-me, agradeci e, feliz, coloquei-me prontamente à disposição.

Disse Jesus:

Cada vez que uma alma desperta e encontra Deus, todo o Céu se alegra e celebra, assim como os homens se alegram e celebram quando são convidados para um casamento, assim também acontece quando o Céu celebra... quero dizer-te que muitas vezes fizeste Nossa Alegria no Céu aumentar quando, em teu nada, glorificaste o Altíssimo trazendo almas para amar a Deus..., portanto, não temas.” (A Verdadeira Vida em Deus, p.)

 

Convite à consagração a Maria Santíssima

Simultaneamente ela colocou outro desejo ardente em meu coração: o de buscar uma união mais profunda com ela através da consagração. Isto era algo muito original para mim.

Ao pesquisar na internet detive no livro Tratado da Verdadeira Devoção à Santíssima Virgem. Este muito me instruiu no conhecimento desta digníssima Mãe e Senhora e da prática da verdadeira devoção.

Neste está escrito que o mundo nunca conheceu e nem conhece Maria, mas que da mesma forma como ela foi escolhida por Deus para ser o canal pelo qual Cristo veio ao mundo, Deus também a escolheu para ser o canal pelo qual cada um encontrará Cristo dentro de si mesmo, ou seja, se unirá ao seu Filho.

Foi por intermédio da Santíssima Virgem Maria que Jesus Cristo veio ao mundo, e é também por meio dela que Ele deve reinar no mundo.” (Tratado da Verdadeira Devoção à Santíssima Virgem)

De sorte que o caminho para ir até Jesus se faz seguro por meio de Maria. Entregando e confiando-me a ela mediante uma devoção acima de tudo interna, íntima, profunda e numa franca comunhão diária, ela me mostraria os caminhos internos e externos que deveria percorrer, derramaria sobre mim e sobre os meus suas graças e me auxiliaria a transpor etapa por etapa ajustando-me às virtudes santas.

Esta querida mãe de Jesus e nossa também é tão distribuidora de graças que se antecipa aos nossos desejos e necessidades oferecendo-nos algo que muitas vezes ainda estamos longe de lhe pedir.

Foi como se deu comigo nesta segunda vez em que Maria antecipou-se presenteando-me com o convite valorosíssimo da minha consagração.

 

Singelo momento de união com Maria

Sem que até então soubesse como era a prática de me consagrar a ela, pois ainda estava nas primeiras partes do livro, Maria ensinou-me a fazê-lo num breve momento do meu dia. Eu já havia acolhido em meu coração a ideia de consagrar-me, já havia dado o meu “sim”.

Estava no carro com meu filho mais velho quando ele começou a cantar uma música. Sua letra estava um pouco errada, mas era de uma graciosidade que senti intenso amor por ele e grande confiança no adulto que se tornaria.

A música era assim:

“Dona Maria,

Deixa eu namorar a sua vida,

Vai me desculpando outro dia,

Essa menina é o desenho do céu...”

Ao ouvi-la recordei-me de Maria e naquele singelo momento de alegria e amor convidei-a para senti-lo comigo em seu coração.

Disse-lhe que podia imaginar a quantidade de pessoas no mundo todo que lhe rogava ajuda, cercando-a dos seus sofrimentos de modo que seu coração deveria estar repleto de tantas dores e lamentações e que, por isso, eu queria lhe oferecer aquele singelo momento de puro amor com meu filho para alegrar seu coração.”

Meu filho elevou a voz passando a cantar o refrão da música de forma bem exacerbada.

Ao descer do carro, ele olhou para cima e disse:

“Mamãe, está chovendo.”

“Não está não, filho”.

“Está sim. Está chovendo uma chuva de arco-íris na minha cabeça.”

Emocionei-me. Naquele momento Maria derramava uma chuva de graças coloridas sobre meu filho para me mostrar que participara daquele momento.

Agachei e contei para ele que quem havia mandado aquela “chuva de arco-íris” havia sido Maria, pois eu a havia convidado para escutar ele cantando aquela bonita música e ela queria que soubéssemos que ela havia participado e gostado.

“A Maria de Fátima, né, mamãe?” *

“Sim, meu amor.”

Nota:

*Eu jamais referira a Maria de Fátima ou a história de sua aparição para ele.

 

A verdadeira devoção a Maria é interna

Neste caminho entrelaço todo meu ser a Maria. Tenho-a como uma pessoa real (tal como é) e a tomo como minha Mãe celestial e boníssima. Coloco-a diante de mim ao longo do dia e vou compartilhando e entregando-lhe meus pensamentos, sentimentos e feitos assim como minhas lutas, falhas e dificuldades na medida que vão acontecendo. Louvo-a e lhe ofereço orações quando me recordo. Curvo-me em minha pequeneza e exalto-a. Torno-me tão necessitada dela.

Tudo de mim e que sai de mim passa a ser para ela, por ela, com ela e nela.

Confio-me inteiramente a ela como intermediadora até Jesus Cristo para que me conduza os passos.

E quando me percebo estou vivendo diante de sua presença moral, que me acolhe, inspira e direciona minha conduta.

 

Imitação de Maria

Não bastando partilhar e entregar-me a ela inteiramente, ela colocou em meu coração a sede por conhecer suas virtudes e exemplos em sua venerável vida.

Humildade, obediência a Deus, fé fervorosa, o esperar em Deus, viver em Deus, a vida de oração, o amor a Deus e à humanidade, caridade, espírito de sacrifício, pureza, castidade e amor à pobreza. (Dos livros: Para imitar Maria e Glórias de Maria)

Passei a naturalmente meditar suas virtudes e passagens de vida descobrindo valiosas chaves que me tornavam possíveis, aos poucos e na minha medida, ir incorporando-as como parte do meu ser.

Encontrava-me diante de um caminho grande e sagrado para minha santificação.

Ao imitar as virtudes de Maria compreendi que estaria imitando as de Cristo mesmo por ela já as reunir todas em si. Maria se revelou como uma versão feminina de Cristo, guardadas as devidas proporções. Por isso que eu, imitando-a, estaria seguramente imitando a Cristo. Por isso é que podia entregar-me à sua condução e confiar-me à sua obra - pois sua obra, afinal, seria a de Jesus em mim.

Diz Pseudo-Agostinho que, para obter com mais certeza os favores dos santos, é necessário imitá-los porque nosso esforço nesse sentido fá-los dispostos a rogar por nós. Depois de ter subtraído alguma alma das garras de Lúcifer, unindo-a com Deus, quer Maria, Rainha dos Santos e Nossa primeira advogada, que ela se aplique a imitá-la. Do contrário não poderá enriquecê-la de suas graças como desejaria, vendo-a a si oposta nos costumes.”

***

Pela manhã fui à papelaria imprimir alguns testemunhos. A vendedora mencionou que era muito ansiosa e que poucos dias antes havia se lembrado de mim, pois eu a inspirava uma paz e serenidade que ela desejava alcançar e que havia algo em mim que lhe chamava a atenção.

Como era graciosa a forma como Maria preparava e trazia as pessoas para receberem os bens que queria lhes ofertar. Falei à vendedora sobre meus testemunhos, o exemplo de Cristo como fonte viva de inspiração para nós, a minha vida de fé em comunhão com os Céus e o poder e a presença de Maria em minha vida, o convite à consagração e à imitação de suas virtudes como caminho da minha salvação.

Disse que o que ela via em mim era reflexo da paz de Maria e de Jesus e que se isso lhe chamava atenção era porque ela estava pronta e tinha olhos para ver, ouvidos para escutar e coração para sentir.

Este fato repercutiu fortemente em mim, pois eu ainda estava enamorada de Maria e no processo de conhecer e meditar suas virtudes almejando um dia poder imitá-las e um dia atrair almas para ela e a bondosa Mãe surpreendeu-me mostrando que já conseguia usar a mim como espelho para atrair almas para si.

Isso porque ela tem o poder de agir dentro das pessoas e a mim cabia apenas confiar e fazer a parte que me pertencia.

Esta vivência tornou evidente o quanto os Céus não tardam em seus interesses. Usam-nos e nos usarão largamente muito além do que podem nossos olhos ver ou nossa mente conceber com o fim de alcançarem seus desígnios dentro das pessoas.

Episódio semelhante se deu dois dias depois com a atendente do caixa da padaria.

Foram para mim chamamentos profundos da seriedade com que deveria encarar a imitação de suas virtudes e o convite para colocar mãos à obra.

 

Vestindo-me como Maria

Tudo mudou quando passei a me conceber como uma representante de Maria. Acompanhava-me forte sentimento de ajustar minha forma de me apresentar aos demais.

Nunca fora de usar maquiagem ou salto, bastava-me batom, brinco e alguma roupa simples, convencional. Mas de repente ao aprontar-me para sair estava diante da presença moral de Maria e como a representaria aos demais?

Cabelo, sobrancelha e unhas bem apresentados e sensatez no vestuário. Não se tratava de luxo, mas de apresentar a mais pura dignidade na simplicidade.

Entretanto o chamado mais profundo foi o que dizia respeito ao ajustamento moral: que minha forma de vestir jamais acarretasse a queda moral de homem algum por meio do olhar que desperta o instinto. Roupa apertada, curvas sinuosas, decotes e short curto não combinavam com a reserva que cabia a mim estabelecer para os demais e com o pudor e discrição de Maria. Tudo isto eram coisas do mundo e da carne onde se cultuam corpos e libido enquanto eu estava aprendendo a cultuar e exaltar a Deus.

***

Estávamos em vias de viajar para a praia e ao fazer as malas na presença de Maria adicionei junto ao biquíni um maiô.

La chegado, ela foi preparando meu coração ao longo dos dias até o momento de partir para o ato, substituindo o primeiro pelo segundo. Havia conduzido tudo com brandura, espírito de castidade e beleza e exigiu de mim firmeza para alcançar a vitória sobre os velhos hábitos e sobre o pensamento do que os outros pensariam de mim. Mas nada daquilo tinha importância mais. Era apenas eu diante dela.

Retornei da praia com o desejo impostergável de rever os itens do meu armário, um a um de forma a desfazer daqueles que não condiziam mais com aquela Luciana nascente de Maria. Confesso que não foi fácil. Enchi uma grande sacola para doação e as melhores roupas para um bazar de caridade. Não consegui desfazer de algumas peças. A luta interna seria muito grande e não estava disposta a gastar toda minha energia nela, pois meu foco estava na reformulação do guarda-roupa como um todo. Aquelas permaneceriam lá ainda que, de antemão, sentisse que não conseguiria mais vesti-las. Não havia problema, pois tudo seria no tempo de Maria. Foi um momento de valentia e entrega, de paz e alegria no coração.

Organizei-me para sair a compra de novas peças em feliz união com a Santa Mãe perguntando-a, peça por peça, se lhe agradava. Confesso que as novas roupas não condiziam com meu gosto particular e me sentia um pouco desconfortável. Mas estava disposta a seguir em frente sem interrupção e a permitir que emergisse de dentro de mim um novo ser, que desconhecia, gestado por Maria.

Acabei levando longos meses para reformular meu guarda-roupa, deu-se aos poucos e sem pressa. O importante era manter a constância do meu “sim”.

Não passei a me vestir com roupas muito largas e sem feminilidade. Nada disso. Abandonara as roupas coladas ao corpo, curtas e decotadas e aderi a blusas femininas soltas, bermudas mais compridas, saias e vestidos abaixo dos joelhos. Nada desleixado, mas belo, feminino e com o devido resguardo.

 

Poderosa proteção contra satanás encontro em Maria

Tão perfeitos são os planos de Deus para cada um.

Para que conseguisse trilhar a caminhada pessoal de crescimento e, principalmente, ser instrumento de evangelização e testemunho de uma vida em Deus para os demais, necessitava de muita proteção contra as investidas e ataques de satanás para que este não detivesse minha marcha e para que o Bem pudesse alcançar e abrir caminho dentro de cada um e em suas vidas.

E não há ninguém depois de Jesus mais poderoso contra satanás do que Maria. Diante dela e do seu nome “treme o inferno e fogem os demônios”.

Disse São Luís de Montfort que basta que ela, rainha dos Céus, peça que correm em nosso auxílio e proteção para servi-la São Miguel e os anjos do Céu e nada os compraz mais:

 “Como diz São Boaventura, todos os anjos lhe cantam no Céu incessantemente: “Santa, Santa, Santa Maria, Mãe de Deus e Virgem!” E, todos os dias, lhe oferecem milhões de vezes a saudação angélica: “Ave, Maria...”, prostrando-se na sua presença e pedindo-lhe a mercê de os honrar com algumas das suas ordens. O próprio São Miguel - disse Santo Agostinho -, embora seja o príncipe de toda a corte celeste, é o mais diligente em lhe prestar toda espécie de homenagens e em fazer com que lhes tributem. Constantemente aguarda a honra de por Ela ser mandado em auxílio a alguns dos Seus servos.” (Tratado da Verdadeira Devoção a Santíssima Virgem, p.15)

Tal proteção eu comprovava.

Quão belo era para mim poder receber mais uma vez e por graça a proteção de Maria sem a qual jamais conseguiria realizar o trabalho que meu coração ansiava e sentia-se chamado.

Também sobre isto disse Jesus:

Eu, em Minha Santidade Trinidária, escolhi esta humilde Virgem para Se tornar, em Suas perfeitas virtudes e graças, a Mulher que desafiaria com Suas Virtudes e graças todo o império de Lúcifer, que constantemente fica furioso e treme de medo ao som do Seu Nome.” (Verdadeira Vida em Deus, p.904)

Ela, “a Segunda Eva, a quem dei poder suficiente para derrotar Satanás e seu império.” (Verdadeira Vida em Deus, p.904)

 

O peso da minha cruz

Todos nós carregamos cruzes. Cada um tem a sua, e as suas. Elas são pesadas, difíceis de levar e muitas vezes achamos que vamos sucumbir. Mas Jesus nos deixou o exemplo e tal como carregou a sua devemos nos esforçar para carregar a nossa como meio de alcançarmos a salvação. Não é para nos abandonarmos ou martirizarmos por causa delas, mas buscar os melhores meios internos para conseguir carregá-las.

Já me referi ao fato de o esposo ser ateu. Um ateu com firmes convicções e sólidas argumentações que logicamente reagiu diante da minha nova postura: “Quando te conheci você não era assim!”

Até que um dia para me justificar mencionei que no hospital havia tido um encontro real com Jesus e Maria que haviam me transformado. O conteúdo foi por ele friamente repelido.

Quando estava no CTI Jesus havia dito que “me daria uma nova dor, uma que nunca havia me dado antes”. De fato constituía dor dilacerante caminhar em tão íntima união com os Céus e colhendo tantas alegrias sem poder compartilhá-las com a pessoa que me era mais cara e que havia escolhido como companheiro na vida e, por consequência disto, nem com nossos filhos.

Daí eu seguir dentro do lar estreitando-me cada vez mais intimamente a Jesus e a Maria no silêncio do meu interior. Nos planos perfeitos de Deus para mim, minha única saída era viver uma devoção estritamente interior na qual ardia fervorosamente meu desejo de me unir cada vez mais com os Céus.

Os dias que o esposo estava de folga eu passava ao seu lado partilhando dos seus interesses e dos da família. Passei a notar que ia entristecendo ao longo do dia chegando no final a sentir-me intoxicada, asfixiada, como em agonia espiritual. Compreendi que era porque ao seu lado enchia-me ininterruptamente das coisas do mundo e estas me sufocavam. Eu não podia expressar-me livremente nas coisas de Deus nem com ele nem com os meninos. Descobri que meu sofrimento se devia por haver estado “apartada” forçosamente de Deus por tanto tempo. Na sua ausência eu falava sobre os Céus para as pessoas que me cercavam ao longo do dia com a mesma necessidade de respirar o ar que me rodeava.

***

O dia que ele entrou de férias senti uma tristeza indescritível pois achava que agonizaria continuadamente.

Orei rogando a Maria sua presença compensatória em meu dia e que nas férias eu compensasse o não poder falar de Deus e evangelizar dentro do meu lar para fazê-lo fora para os demais. Viajaríamos para praia e que ela usasse aquela dor do meu coração para que evangelizasse muitos. Somente assim encontraria alento no coração. Somente assim transformaria a dor em amor. Viajei colocando-me na certeza de ser instrumento útil para pessoas de outro estado.

Roguei sua presença a cada respiração do meu dia. Necessitava do seu colo. Nela me alimentaria e saberia que não me encontrava só. Encontrei refúgio espiritualmente em seu coração e braços. Somente ela podia me compreender e isso me bastava.

Naquele primeiro dia de férias meu esposo saiu pela manhã com nosso filho mais velho para brincar de carrinho de controle remoto, a tarde escureceu a cortina e fez pipoca para mim e os meninos quando assistíamos a um filme enquanto saiu para lavar o carro, lavou as vasilhas, desceu até o carro para trazer um pertence do bebê esquecido. Em resumo: descansei meu corpo de mãe por não precisar sair de casa. A noite trouxe metade da pizza sabor vegetariano para mim (ainda que tivesse dito que já jantara). Comemos e estava uma delícia. Ele havia também ao longo do dia me enchido de mimos e carinhos. Havia ido muito além da sua normalidade. A noite lhe agradeci dizendo que havia me tratado como uma princesa.

Imediatamente acorreu em minha mente a recordação de Maria pelo título de rainha que lhe cabe sendo eu apenas uma princesa para o esposo. Era isto! Havia algo de Maria naquilo tudo.

Ao deitar sobreveio a certeza que meu esposo havia feito aquilo tudo para mim pelas mãos de Maria. Havia sido ela mesma que o havia usado para encher-me de todo seu carinho, dar-me todo o colo e alento do qual como filha necessitava e lhe rogara. Chorei emocionada ao compreender que:

Da mesma forma como eu em comunhão com ela ia oferecendo-lhe meus pensamentos, sentimentos e feitos ao longo do dia, ela havia feito o mesmo comigo oferecendo-me seus sentimentos e feitos pelas mãos do esposo.

Não nos é possível alcançar a significação do que representa trilharmos um caminho de união e devoção profunda a esta Mãe tão querida. Não conhecemos o alcance e o poder de suas graças em nossas vidas. Maria irá sempre nos surpreender nos envolvendo com o seu puríssimo amor. E ainda nos faz ter certeza em nosso íntimo que é ela quem o faz.

 

Maria torna doce minha cruz

Chamou-me especial atenção a forma como São Luís de Montfort se refere a respeito de carregar a própria cruz com Maria quando se vivencia a devoção para com ela. Disse que a cruz se tornava mais suave e leve, pois a boa Mãe a banhava de mel.

Eu comprovava essa verdade em inúmeras passagens da minha caminhada. Como se fazia tenro o carregamento da própria cruz ao lado desta Mãe. Era bem melhor carregar minha cruz, áspera e pesada por natureza, com a intercessão de Maria. Eu não sofria grandes quedas porque era como se ela me detivesse antes de cair ou os tombos eram leves e logo conseguia me reerguer, pois a boa Mãe me insuflava alento, oferecia-me seu colo e me fazia colher alegrias ainda que num contexto de dor. Tudo isto eu experimentava como doçura.

“(...) sustento que são os servidores de Maria que levam estas cruzes com mais facilidade, mérito e glória; e mais, que, onde outro qualquer pararia mil vezes e até cairia, eles não se detêm e, ao contrário, avançam sempre, porque esta boa Mãe, cheia de graça e unção do Espírito Santo, adoça todas as cruzes que para eles talha, no mel de sua doçura maternal e na unção do puro amor; deste modo, eles as suportam alegremente, como nozes confeitadas, que, de natureza, são amargas.” (Tratado da Verdadeira Devoção a Santíssima Virgem, p.85)

 

Minha devoção a Maria Santíssima

Com algumas semanas de devoção* experimentei que era possível alcançar a graça da proteção, do auxílio e da imitação das virtudes de Cristo que me encaminhariam para minha salvação e união com ele. Comprovava e aquele deveria se tornar o trabalho de toda uma vida.

Jesus nos fala a respeito desta sagrada devoção:

 “Em vossa devoção por Ela é a Mim que vos estareis dedicando; cada devoção, honrando Seu Coração, se ampliará e subirá a Mim, uma vez que Nossa união é tão perfeita; em vossa devoção ao Seu Coração todos Meus decretos serão melhor compreendidos em Sua Luz, porque vossos passos serão guiados pelo Seu Coração, uma vez que vossa Mão será tomada pelo próprio Trono das Graças; quanto sereis abençoados por reiterardes vossa devoção a Ela; vinde Àquela, tão Bendita, que revela Seu Amor Maternal a Seus Filhos, mostrando-lhes o caminho para o Céu."  (A Verdadeira Vida em Deus, p.900)

Nota:

* União profunda, entrega, confiança, meditação, orações e imitação de suas virtudes.

 

Jesus exalta Maria Santíssima

Belíssima é a forma como Jesus exalta Nossa Senhora no seio da criação:

A Rainha do Céu está sempre na presença do trono do Altíssimo; nada menos que a altura do Céu sobre a Terra é a grandeza de Seu Nome; Seu Nome, envolvido num manto de luz; que o mundo inteiro dobre seu joelho diante Dela, que tem o Nome Sagrado de: Mãe de Deus; em Seu Seio Imaculado, Ela Me glorificou.” (A Verdadeira Vida em Deus, p. 898)

 

Com Jesus e Maria

Ao escrever este livro ora me refiro a Jesus ora a Nossa Senhora e às vezes a ambos em alguma situação vivida. Perguntei-me se não pareceria confuso para quem lesse, afinal, a quem seguia?

Ambos se faziam presentes nos meus passos. Em ambos buscava a fonte de inspiração e auxílio, curvava-me em obediência e colocava-me à disposição para servi-los.

Em algumas situações buscava e deixava-me ser guiada por Cristo, noutras por Maria e em algumas ambos me conduziam.

Tudo se explicou quando compreendi que Jesus e Maria formam um só coração:

Não ouviste, criação, que Eu sou o Coração do Coração de Minha Mãe? A Alma de Sua Alma, o Espírito de Seu Espírito? Não ouviste que Nossos Dois Corações estão unidos em Um Só? Considerai Meu Coração Redentor, considerai Seu Coração Corredentor, considerai a Delicia de Meu Coração, levantando-Se como a aurora para iluminar a Terra nesta escuridão; considerai o Coração da Rainha que brilha sobre a humanidade, mais brilhante em Sua radiância do que todas as constelações juntas; mais resplandente que o sol; radiante como Minha Gloria, por Sua perfeição única.” (A Verdadeira vida em Deus. p.899) 

 

Fé sem obras e fé com obras

De que aproveitará, irmãos, a alguém dizer que tem fé, se não tiver obras? Acaso essa fé poderá salva-lo? Assim também é a fé, se não tiver obras, é morta em si mesma."(Tiago 2, 14-17)

A fé é o elemento que me conecta a Deus. Mas ela por si só não me garantirá a salvação.

O que garantirá serão as obras de caridade. É através destas que caminharei em direção a Deus, aprendendo e servindo ao seu Reino.

A caridade estará em tudo o que dispuser de mim para oferecer ao outro seja em termos materiais, psicológico, emocional, moral ou espiritual visando o bem maior e desinteressadamente.

Compreendia que Deus havia me colocado naturalmente à disposição dos demais ainda no hospital e o que fiz foi manter essa postura na minha vida depois. Eu, que era retraída e com estreito círculo social. Era como se Deus tivesse feito-me iniciar um movimento novo em minha vida e era interessante que eu não parasse mais.

Como o serviço a Cristo não falta, bastava colocar-me à disposição dando-lhe meu “sim” que o resto ele mesmo fazia. Se achava que não tinha capacidade, podia confiar que ele me capacitaria ao longo do caminho, tal como vinha fazendo. Havia escutado isso certa vez do padre Marcelo Rossi e comprovava. Ademais Jesus usa as aptidões de cada um ao seu dispor. E quanto mais “sins” lhe dava mostrando-lhe minha responsabilidade e comprometimento, mais serviço aparecia.

De maneira que fazer o bem está muito mais ao alcance de nós do que imaginamos. E não precisa ser nada extraordinário.

***

Assim que retornei ao lar, vivendo lutas espirituais e o medo de outra possível feitiçaria (afinal, estava fora do hospital), encontrei em minha caixa de correios um folhetinho de Nossa Senhora da Cabeça que continha uma oração. Senti profunda gratidão pela pessoa que a havia deixado, pelo meu anjo e pelos anjos guardiões do prédio que velaram para que chegasse em minhas mãos. A oração me ajudou muito a atravessar aquela fase, protegendo minha mente e a dos meus das investidas de satanás e resguardando-as na paz e no amor.

Mas também percebi naquilo um sério convite: da mesma forma como havia sido beneficiada com o encontro com Cristo e Sua Mãe, que beneficiasse outros divulgando folhetinhos nos lugares onde fosse com o intuito de levantar-lhes a fé e para que também os buscassem.

Passei a oferecer às pessoas que trabalhavam nos caixas das lojas e aos que aguardavam na fila. Acrescentava-lhes meus testemunhos e minha fé. Lutava contra a vergonha ou o comodismo sendo fiel unicamente a Deus.

Algumas vezes a pessoa recusava o que me gerava desapontamento e vontade de desistir, mas logo ocorria-me que a marcha não podia ser detida, afinal quem sabia das necessidades do próximo era Deus e não eu e ele faria chegar os folhetinhos a quem necessitasse tal como havia feito comigo. Seguia em frente.

 

Uma agenda com Cristo

O que percebia na prática era que na grande parte das vezes aproveitava para servir Jesus durante alguma atividade corriqueira do dia.

Noutras me via planejando minhas atividades do dia de modo a inserir as dele. Como em uma agenda mesmo.

E não era raro eu ter que reajustar meus horários e atividades pessoais de modo a assentar o serviço prestado ou a ser prestado. Tudo com amor, bom-senso e espírito de doação. Ou de sacrifício, mesmo.

Havia casos em que abria mão de fazer algo para mim para dedicar-me a ele. Para tanto buscava o equilíbrio e escutar a voz do coração.

Encontrava nisso um segredo do aproveitamento do tempo e da criação das oportunidades. Se fosse aguardar o tempo ideal da minha vida para servir a Deus este nunca existiria ou somente quando estivesse aposentada com filhos adultos. Mas o tempo estava no presente e se Jesus me despertara naquela fase da minha vida era porque tinha condições de servir à sua obra. Certamente não me chegara ao acaso o livro da beata norte-americana que recebia direcionamentos de Jesus: ela era mãe de (nada menos do que) seis filhos incluindo um bebê. Seu exemplo me incitava a me movimentar.

Nos lugares onde eu ia deixava os folhetinhos. Ao taxista apresentava o testemunho. Se ia com a família ao parque, clube, restaurante, clínica, hospital, festa de aniversário ou casamento, lá Jesus trazia-me alguém a quem dar o testemunho e evangelizar. Saia de casa para acolher e evangelizar alguém que estivesse doente ou em aflição ou recebia alguém em minha casa. Conversava com Deus orando por mim e para os demais ao fazer as atividades da casa ou organizar a bagunça das crianças. Testemunhei a fé, união e cura alcançada pelas mãos de Maria no encontro do Dia das Mães na escola do meu filho menor.

Criava, me organizava, adaptava e me readaptava. Não sofria, pois Jesus havia colocado de tal forma aquela sede de serviço em meu coração que quando passava algum tempo sem fazer tinha a impressão de que algo me faltava e lhe rogava serviço. Alegrava quando o mesmo aparecia e podia sentir-me útil.

Pequenos servos, procurai unicamente a Vontade Divina. Quero que, em cada dia, penseis naquilo que Eu quero de vós. Isto significa que vos vereis muitas vezes a ter de reorganizar as vossas atividades para que elas passem a corresponder àquilo que são as Minhas necessidades. O vosso tempo tem de dar frutos para o Reino e, para que isso aconteça, deveis sempre perguntar-Me o que é que Eu gostaria que fizésseis com o vosso tempo. Vedes que aquilo que Eu quero é que exista uma comunicação constante entre nós. Ao princípio, isto poderá parecer-vos um fardo, mas rapidamente vos sentireis confortáveis com esta união com o Céu. Porque o Céu deve descer até ao vosso mundo por vosso intermédio, é esse o objetivo, e por isso devereis deixar que o Céu dirija tudo. Sabeis que Nós no Céu estamos dispostos a fazê-lo por vós.” (Mensagem de 8 de outubro de 2004, Jesus fala a seus apóstolos)

 

Servindo-o independente do humor e das condições físicas

 

Jesus nos pede vigilância para levarmos a cabo a disposição ao serviço mesmo diante das oscilações do próprio humor.

E meu estado de ânimo, conflitos interiores, sono ou desconfortos físicos não deveriam prejudicar o bem que ele desejava que alcançasse os demais através de mim.  

Para tanto colocava em segundo plano aquilo de mim que estivesse inadequado para honrar com meu compromisso com Deus.

 “Filhos, Eu sei que estais limitados pela vossa visão enquanto estais na terra. Eu compreendo. Mas este é o tempo de acreditar totalmente. Concordamos, vós e Eu, que, ao tomardes a vossa decisão por Mim, serviríeis independentemente dos sentimentos que podereis ter em determinados dias.” (Mensagem de 23 de setembro de 2004, Jesus fala a seus apóstolos)

 

Apóstolos de Jesus Cristo nos tempos atuais

Estamos vivendo um momento especial da nossa Era no qual Jesus vem despertando muitas almas para individualmente trabalharem para seu Reino difundindo-o aos demais.

Muitos serão os que levantando-se nos diversos pontos do mundo levarão sua tocha de luz e do seu Evangelho de Amor para os demais, trazendo outras almas para aderirem a ele e à sua obra visando edificá-la na Terra.

O convite de Cristo está aberto para todos indistintamente.

Ainda no hospital um dos primeiros livros que chegou em minhas mãos foi o Jesus fala aos seus apóstolos, escrito através da beata norte-americana. Suas mensagens permeadas de amor dirigiam-se às almas de boa vontade e me tocaram fundo.

Conforme lia me perguntava se poderia ser uma servidora de Jesus, tê-lo como meu mestre e Senhor e como fazê-lo, por onde começar. Era um convite de magnífica honra e perguntava se estaria endereçado a mim.

De fato, não era apenas para mim, mas para todas as almas que se sentissem chamadas dentro do coração.

Jesus:

A partir de agora irei considerar-vos como Meus apóstolos. Tal como preparei os Meus primeiros apóstolos para começarem a Minha bela Igreja na terra, instruo-vos agora para que reconquisteis a Minha bela Igreja. A ajuda que vos vem do Céu é imensa! Quando falo da Minha Igreja, estou a falar do corpo da Igreja, que é composto pelos seus membros. É vosso dever chamá-los de volta à segurança da família de Deus. Eu envio-vos, tal como enviei o primeiro grupo. Deveis falar livremente de Mim.” (Jesus fala aos seus apóstolos, Mensagem de 30.09.2004)

 

Mensagem do Espírito Santo

Numa manhã ao finalizar o diário espiritual notei pensamentos fluírem em minha mente. Não se tratava de eu “falar para mim mesma” e os conteúdos eram elevados. Sob sua permissão, transcrevo-os:

Jesus levantará muitas almas tão imperfeitas como ti para trabalhar em sua obra. E há grande mérito nisso. Não te subestime. Tudo está dentro do Plano de Deus para todos e para cada um. Deus usa das pessoas dispostas e bem comprometidas e não de suas perfeições. A perfeição é uma meta e uma conquista. Jamais deves te preocupar com isto. E a forma como Jesus está te usando lhe agrada muito.

Não exija de ti coisas que não podes dar, pois Cristo mesmo não as está exigindo. Não neste momento. Continua servidora fiel e dedicada e isto basta, lhe basta e estás cumprindo tua missão e contribuição na Terra.

Todo crescimento passa por dor. O desligar das coisas mundanas traz dor, rupturas e separações. Continue seguindo a Cristo e ele te conduzirá. Teu trabalho está sendo abençoado pelos Céus e muitas graças estão sendo alcançadas na vida das pessoas através de ti.

Continue com teu trabalho evangelizador e que as graças e bênçãos dos Céus continuem te acompanhando. Não há que ocupar-te de ser imperfeita e atenção aos ataques dos satânicos, que desejam por meio destes pensamentos te paralisar e estacionar a obra de Cristo.

Orai e vigiai como bem disseste em teu livro. Livro este amplamente abençoado e amparado pelo Senhor. Continue divulgando-o àqueles que sinta em teu coração e retire de ti todo pensamento de auto-julgamento. Tu não conheces as necessidades íntimas dos demais, mas Deus sim. E para isto Deus te usa e encaminha teu livro, que é dos Céus também, aos Céus pertence, pois é um trabalho unificado e integrado.

Apenas não duvide mais nem de ti nem de sua obra. Caminhe para frente. Nada temas.” (29.04.2018)

***

Algum tempo se passou até uma amiga fervorosa comentar que rogara a presença e auxílio do Espírito Santo para escrever uma carta para sua tia a quem queria auxiliar. Disse que pensamentos fluíram da sua mente fazendo com que o conteúdo final ficasse belo ao ponto de emocioná-la.

Outra pessoa fiel a Deus trouxe-me uma narrativa escrita por ela na qual afirmava que o conteúdo não adviera dela, mas de Cristo através do Espírito Santo. O texto era impressionante e impactante. Neste o inimigo narrava as artimanhas para causar a queda dos homens sem que eles soubessem, dizia reconhecer o poder de Jesus, o quanto o temem e sobre o fim dos tempos. A narrativa finalizava com um ato teatral composto por três personagens - o inimigo, um homem e Jesus, no qual Cristo afirmava seu poder, a sede de amor por todas as almas e o desejo de salvar o maior número possível delas exaltando ao final sua vitória sobre todo o maligno. 

E São Luís de Montford assim escreveu em seu livro:

Foi o meu coração que ditou o que acabo de escrever com particular alegria, a fim de mostrar como Maria Santíssima tem sido insuficientemente conhecida até agora e como é esta uma das razões por que Jesus Cristo não é conhecido como deve ser.” (Tratado da Verdadeira Devoção a Santíssima Virgem, p.25)

A presença de Deus dentro de cada um e em nossas vidas se apresenta de múltiplas formas sendo esta uma delas.

O perdão e minhas miserabilidades

Desde a alta vinha travando intensas lutas comigo mesma com o intuito de perdoar a pessoa que me desejava o mal e o havia feito. Não era tarefa simples por se tratar de anos de maldade mascarados por detrás de uma conduta bastante amistosa*.

Na verdade, eu não achava que havia passado por todos aqueles processos de saúde por causa da feitiçaria. Compreendia que acima de toda e qualquer vontade humana estava a de Deus para mim, oferecendo-me as tribulações necessárias ao meu crescimento espiritual e nele. E dentro desta grande vontade para mim, qualquer pessoa que possuísse uma má inclinação “pronta para ser descarregada” sobre alguém seria atraída para descarregá-la sobre mim**. De sorte que eu servia de instrumento para a experiência de crescimento da pessoa da mesma forma que ela de instrumento para minha experiência e crescimento. E cada um com seu aprendizado conforme as necessidades purificadoras individuais.

Que belo era alcançar tão nobre compreensão que colocava cada um em seu devido lugar. Agradecia a Deus por isso, mas ainda assim esta não me trazia libertação ao ponto de conseguir alcançar o perdão definitivo em meu coração.

Os Céus haviam tempos antes me inspirado na atuação ideal que consistia em seguir tratando-a da melhor forma possível, pois “a força do amor a chamaria à consciência dos seus atos e ao arrependimento”. Fazia todo sentido. Na teoria era belo, mas na prática não conseguia fazer.

Porém vinha esforçando-me continuadamente naqueles meses. As lutas eram no sentido de mantê-la em minhas orações diárias e não desejar o mal. Às vezes cedia e sentimentos negativos ganhavam espaço, mas aquele estado interior me fazia mais mal do que bem, por isto lutava diante de Deus todos os dias para conseguir perdoar. Muitas vezes dava-me por satisfeita por haver conseguido realizar a pequena parcela de bem de orar e não desejar o mal.

Minha forma de agir consistia em afastar-me definitivamente de toda pessoa que houvesse feito-me mal. Distanciava não desejando mal. Porém desta vez Deus havia disposto a pessoa de tal forma na minha vida que era impossível recorrer ao velho padrão de comportamento. Recordo-me de num dia de lutas interiores me queixar para Deus que ele nem havia me deixado descansar do fim da cruz da enfermidade para me dar outra na sequência – e como esta nova era difícil, pesada e impossível de fugir.

Compreendia que Deus em sua imensa bondade me concedia oportunidade excepcional de crescimento nele pois deveria fazer pela primeira vez na vida de um jeito completamente diferente de até então. Meu coração lhe agradecia por isto. Mas como fazer? Não tinha a menor ideia, apenas confiava e me mantinha em meditação e oração para esta causa.

***

O afastamento definitivo era impossível de se dar. Num determinado dia, cansada deste sofrimento, telefonei-a expondo o motivo pelo qual me afastara, da dor que me infringira e da minha decepção. Não ofendi. Senti sair um peso enorme das minhas costas pelo fato de ela a partir de então passar a saber que eu sabia e que aquele era o motivo do meu retraimento.

Essa vivência foi importante, pois me mostrou como poderia atuar de forma impulsiva movida pelo passional e pela reatividade. Expôs para mim minha condição de miserável, falível e inconstante. Deus me permitira conhecer a que ponto poderia chegar minha intempestividade para me mostrar o que era pretender fazer algo de tão grande envergadura, ou seja, perdoá-la, sem ele. Isto porque às vezes conseguia pensar e desejar o bem e a paz, mas noutras despontava o passional que punha tudo a perder fazendo vencer minha natureza negativa, impulsiva e desarmonizada.

Deus é lindo e me permitiu viver tudo isto com ele, diante dele e pouco depois entendi que era porque não havia ainda me unido suficientemente a ele e me abandonado por completo à sua condução. ***

Nota:

*Estava em 2017 e as feitiçarias tiveram início em 2013.

** Três pessoas fizeram feitiçaria para me prejudicar durante o curso do meu problema de saúde sendo que a nenhuma havia feito mal e a nenhuma devolvi o mal com o mal.

*** Ao mencionar a uma amiga devota ela disse que havia chegado o tempo de Deus de sua máscara cair e que satanás, descoberto, perderia força. Acrescentou que ainda no hospital quando o Espírito Santo me revelara era porque a feitiçaria “não mais surtiria efeito”. Da minha parte, por mais intenso e estranho que houvesse sido aquela situação de lhe telefonar sentia-me o tempo todo na presença de Deus, uma paz profunda me acometeu depois e grande graça sobreveio à minha família.

 

Minhas miserabilidades diante de Deus

Eu, a menor dos menores

À medida que seguia empreendendo minha caminhada diária com Deus, ainda que com boas intenções no coração, esforços e espírito de vigilância e oração, parecia saltar-me diante dos olhos todas minhas misérias - limitações, medos, imperfeições e erros reiterados - que me faziam questionar a eficácia da caminhada, duvidar da minha capacidade para tão elevado ideal e considerar, de forma mais séria, minha indignidade diante do Senhor. Afinal, precisava eu errar e ter isto evidenciado a mim mesma tantas vezes?

Em síntese: quanto mais caminhava e mais frutos valorosos colhia em Deus, mais me deparava com minha miserabilidade.

Um dia ao fazer o diário espiritual compreendi como um passo natural Deus me colocar diante de todas minhas misérias, pois era a forma pela qual podia sentir uma dor tão grande que me fazia reconhecer minha pequeneza e imediatamente prostrar-me diante dele, aceitando a humilhação de ser tão imperfeita e incapaz.

Apenas deste modo era possível tornar-me cada vez mais humilde diante dele.

Desnudava-me, já não possuía nada mais a esconder.

Todas minhas misérias eram francamente reveladas para o Senhor.

E isso não devia fazer com que me envergonhasse ou afastasse dele, pois seria vaidade e orgulho. Ao contrário, colocava-me num maior grau de união com ele. Como se finalmente agora cada um estivesse em seu devido lugar. Afinal era dele que vinha toda a força e de mim, nada.

Esse momento repercutiu num grau maior de humildade, desnudamento e abandono de mim mesma no Senhor.

A ele tudo e a mim nada.

"Aproximai-vos de Deus, e ele se aproximará de vós. Lavai as mãos, pecadores, e purificai os vossos corações, ó homens de dupla atitude. Reconhecei a vossa miséria, afligi-vos e chorai. Converta-se o vosso riso em pranto e a vossa alegria em tristeza. Humilhai-vos na presença do Senhor, e ele vos exaltará." (Tiago 4, 8-10)

Compreendi também ao observar meu exemplo e o de outros que constitui plano perfeito de Deus nos manter pequenininhos diante dele, ou seja, manter-nos ‘o menor dos menores’, pois somente desta forma ele pode nos manter fortemente unidos a ele ao longo de todo caminho a ser percorrido - o que representa para nós segurança perfeita. Afinal, se permitisse aos seus pequenos que parassem de errar estes, julgando-se autossuficientes, se afastariam colocando tudo a perder.

Chamava-me atenção os santos se considerarem “o mais miserável dos miseráveis”, o “menor dos menores” e o “mais indigno dos servos”. Como assim, eles, que eram santos? Creio que a compreensão anterior coloca um pouco de luz sobre esta questão.

Além do mais, quanto mais me deparava com minhas miserabilidades e pecados sob forma de pensamentos, sentimentos e atos, mais era impelida a aceitar e perdoar a mim mesma, momento pós momento. Isto ia me transformando ao ponto de enxergar nas falhas alheias as minhas e a naturalmente perdoá-las. Bem mais difícil seria perdoá-las caso não falhasse eu por mim mesma.

Deus é perfeito em todos os detalhes.

São Luís de Montfort se referiu assim:

Para despojar-se de nós mesmos é preciso conhecer primeiramente bem, pela luz do Espírito Santo, nosso fundo de maldade, nossa incapacidade para todo o bem, nossa fraqueza em todas as coisas, nossa inconstância em todo o tempo, nossa indignidade de toda a graça e nossa iniquidade em todo o lugar.” (Tratado da Verdadeira Devoção a Santíssima Virgem, p.48)

 

Um cabelo no altar para Jesus

Estava nas semanas dos exercícios espirituais preparatórios para a consagração à Maria Santíssima segundo o método do Tratado da Verdadeira Devoção à Santíssima Virgem (São Luís de Montfort, 2002) quando, ao rezar o Terço, lamentei com a Mãe a falta que sentia de ter alguém em meu círculo social que estivesse à frente na minha caminhada para servir-me de inspiração. Rogava-lhe que trouxesse esta pessoa a mim.

Arrumei as crianças e segui para o parque ao lado da minha casa. Não demorou a aparecer uma babá devota de Deus que, para minha surpresa, estava com o cabelo cortado na altura de corte masculino. Ao me ver sorriu vindo em minha direção.

Contou que há um ano estava em busca de uma maior aproximação a Deus, de uma maior dependência espiritual, até que chegou o momento na sua igreja de alguém se dispor a oferecer algo de elevado apego pessoal no altar para Jesus - em vias de alcançar um despojamento pessoal e um maior preenchimento pelo mesmo.

Disse que sentiu no coração que seu momento havia chegado e que em seu cabelo estavam reunidos grande vaidade e apego. Que este, além de belo, representavam sua identidade sendo por causa dele chamada “cachinhos dourados”.

Acrescentou que não havia sido fácil cortá-lo, necessitara de toda uma preparação interior permeada de muitas lutas diante do Senhor. Mas que como havia lhe dado seu “sim” não havia como moralmente voltar atrás. Concluído o ato, sentiu um preenchimento profundo no coração que a situou em “outro nível espiritual” de união com ele.

Finalizou feliz dizendo ter certeza de ter lhe oferecido um “sacrifício perfeito”.

Seu testemunho tocou fundo na minha alma, pois dialogava com minhas dores pessoais. Eu carregava o incômodo de ter que diariamente ajustar a bandana na testa para esconder a imperfeição óssea. Pouco tempo antes, meu médico havia informado que a curvatura da testa após a colocação da prótese não voltaria a ser como antes pelo fato de dispor de menos pele (esta repuxara para dentro). Na ocasião, levei um susto e entristeci, mas logo curvei-me aceitando a vontade do Pai. Mas ainda assim, permanecera um pesar pela expectativa de como ficaria e por ter que usar franja (que não gostava), além da dúvida se a esta esconderia a imperfeição.

Ali, diante da babá, lágrimas desceram abundantemente dos meus olhos devido às fortes comoções internas e ao apego e vaidade com minha testa e cabelo. Considerava a vontade de Deus e a minha, pensava na minha aparência e que quem eu precisava que realmente me amasse era Deus e ninguém mais. E, de repente, encontrava-me diante de uma pessoa que havia voluntariamente oferecido sua maior fonte de apego e vaidade (que coincidentemente estava na cabeça) para Jesus. E ele ao final a preenchera de forma tão única que ela, por mais que tentasse me explicar, eu jamais compreenderia a não ser vivenciando o mesmo.

Ela se afastou e ao pousar o olhar sobre ela senti meu coração encher de ternura. Ela nunca me fora tão bela quanto naquele momento. Mas o que sentia contrastava com aquilo que meus olhos carnais viam, pois ela estava sem os cabelos que adornam o rosto de toda mulher. Na verdade, ela se encontrava desconforme aos olhares do mundo, mas pelo olhar da minha alma nunca me fora tão bela. E era este que importava.

Ao mencionar-lhe isto ela respondeu que havia feito um pedido para Jesus: que ele usasse aquele sacrifício para levar almas para ele; que as pessoas não vissem seu cabelo, mas o que ela havia feito para Deus; que se sentissem tocadas pensando ‘quem era aquele Deus que ela tanto amava?’ e que, por fim, desejassem um Deus assim, e viver semelhante nível de fé. Acrescentou que Deus lhe mostraria quem realmente gostava dela, pois estes não se afastariam por causa do seu cabelo.

Eu não consegui alcançar a riqueza da significação daquele testemunho, mas sentia que ia muito além da questão da minha testa e vaidade e que representava um grande passo na minha união espiritual com Cristo. Tanto que o mesmo se fixou em mim de forma profunda, inquietando minha alma e me predispondo a buscar o que fosse necessário para viver semelhante experiência.

No caminho do perdão

Desde a alta vinha me esforçando para vivenciar o estado pleno do perdão e do amor pela pessoa que me desejava mal e, quando o alcançava, sentia profunda paz e libertação. Permanecia desta forma durante dias o que me fazia achar que alcançara o perdão definitivo.

Mas o que se dava na sequência era a invasão, sem que pudesse evitar, dos baixos sentimentos - ressentimento, raiva e até revanche – ainda que estivesse diante e em comunhão com Deus.

Então continuava travando lutas extenuantes para alcançar o perdão novamente. Assim seguia oscilando entre um estado e outro.

Mas desde algum tempo vinha notando algo diferente: sempre que o ressentimento, raiva ou sentimento de revanche tomavam corpo, sentia uma repulsão natural por eles. Como se me intoxicassem. Como se meu corpo e alma os repelissem naturalmente. O desconforto era grande. Era uma sensação nova que sabia advir de Deus.

Além destas repulsas, meu corpo e alma também repeliam o sofrimento por não conseguir perdoar.

Em suma, minha alma estava repelindo tanto os baixos sentimentos quanto o sofrimento deles advindo.

***

Isto se seguiu num grande incômodo por dias, até numa manhã eu queixar para Jesus dizendo que vinha vivendo minha vida sem fazer mal a ninguém, e ainda assim uma pessoa viera e me fizera o mal de modo que agora, além de sofrer o mal recebido, também sofria por não conseguir perdoar.

Estava cansada de tanto sofrimento. Como era possível sair daquela situação?

Sucedeu de eu dizer assim para Jesus:

“Estou cansada de sofrer pelo que me causam os meus defeitos e as minhas mazelas. De agora por diante, quero sofrer apenas por ti.

Não quero mais sofrer a dor de não perdoar.

Quero ser somente amor.”

Surpreendi-me com o que dissera, pois emergira com tamanha força e espontaneidade das minhas profundezas e, de fato, solucionava tudo.

Se eu fosse somente amor sofreria apenas pelas causas de Cristo e não teria mais as minhas mazelas pessoais para sofrer.

 

Ser somente amor

Pouco depois notei que minha alma estava rejeitando não apenas os baixos sentimentos, mas também tudo que dizia respeito à satanás, ao pecado e ao mundo, de modo que tudo aquilo me intoxicava e o movimento natural do meu ser era os repelir, pois eu queria ser somente amor.

 

Sacrificando minhas vontades para Jesus

Aquele testemunho do cabelo no altar para Jesus permaneceu me incitando. Havia um mistério a ser revelado. Intuía sua conexão com o caminho do perdão, mas não conseguia visualizar como as peças poderiam se encaixar.

Havia evitado encontrar com a referida pessoa nos últimos meses, mas em poucos dias teria que estar em sua presença, o que estava me deixando tensa.

Senti que era chegada a hora de abandonar a passividade e partir para ações mais concretas tal como oferecer pequenos sacrifícios a Jesus pelas mãos de Maria – como num início de um treinamento para algo maior que inevitavelmente teria que viver.

Minha única opção era seguir em frente e estava decidida a fazer o que tivesse que ser feito, mas não sozinha, desta vez em união com Cristo pela intercessão de Maria.

Ela me inspirou a começar oferecendo-lhe o sacrifício de me abster de tomar sorvete no sábado em família. Posteriormente, a renunciar ao café ao longo de toda semana até o dia do grande encontro.

Segui cumprindo humilde e obedientemente, internalizada em mim mesma e em profunda união com ela.

 

Matando meu ego

De todos os exercícios que vinha aprendendo com Deus foi-me trazida, sob inspiração de Maria, a necessidade de matar meu ego.

O ego representa nossa parte primitiva, detentora da sabedoria que sustém o indivíduo na matéria e que esta defende como forma de sobrevivência.

O exercício espiritual consistia em identificar as manifestações do meu ego para em seguida poder desligar-me delas alcançando neutralidade nas questões as quais dizia respeito. Vou exemplificar.

Nas situações em que me sentisse incomodada ou chateada pelo que houvesse alguém dito sobre mim ou algo, identificaria nesta a manifestação do meu ego e buscaria esvaziar-me do mesmo alcançando um estado de neutralidade.

Nos momentos em que surgia algo para fazer, considerar que o egoísmo advinha do ego ao passo que cabia a mim esvaziar-me do mesmo e realizar o que me era devido.

Quando minha opinião se diferia da de outra pessoa, não necessariamente contra-argumentar, mas compreender que o modelo de impor minha opinião pertencia ao ego, e que deveria esvaziar-me do mesmo e ceder à arbitrariedade buscando o apaziguamento dos nossos interiores a um ponto convergente.

Ao atuar desta forma percebi que matar o ego não se tratava de tarefa fácil. Algumas vezes conseguia e noutras não. Mas o compreendi como um exercício diário de manter-me vigilante para, identificando suas manifestações, buscar aniquilá-las em vias de um esvaziamento que me apaziguasse com meu eu interior desprovido do ego.

Logo percebi neste exercício o de toda uma vida.

 

Ao renunciar ao ego abro espaço para as virtudes de Cristo

Notei que quando conseguia renunciar às manifestações do ego, que não faziam parte do meu verdadeiro eu, passei a naturalmente oferecer este ato a Cristo. O esvaziamento interno que se seguia abria espaço para que fosse preenchida pelo amor e virtudes do mesmo.

Compreendi que o amor de Cristo não consegue entrar quando estamos cheios das manifestações passionais e mundanas regidas pelo ego.

E como era meu ego o que exigia, melindrava, se ofendia e ressentia, daí o caminho imprescindível de haver de matá-lo, renunciar ao mesmo, pois esta era a única forma pela qual seria possível abrir espaço interior para ser preenchida pelo amor e virtudes de Cristo, pela piedade e compaixão para com todos.

Isso explicava como Jesus havia tudo suportado (ofensas, humilhações, desprezos, incompreensões, hipocrisias, traições e maldades) e somente amara. Pois ele não possuía mais o ego - a parte que toma para si os agravos e reage. Jesus era despojado de si mesmo e, por isso, totalmente preenchido pelo amor de Deus.

Entrei em oração conforme compreendia a grandeza que estava se abrindo diante mim. Senti medo.

Ao compartilhar estas descobertas com uma amiga devota referi que seguiria até onde Jesus e Maria conseguissem me levar.

Assustei-me com a profundidade e seriedade do que havia dito. Estava disposta a seguir adiante por um caminho que desconhecia, mas confiava. Isso porque as barreiras que acaso pudessem existir dentro de mim, eles as dissolveriam, inserindo mansamente ideias e sentimentos em meu coração e me transformando, despertando minha vontade e robustecendo-a ao ponto de eu conseguir colocá-las em prática.

Qual seria então o limite pelo qual eles não mais conseguiriam me conduzir, se tudo a eles pertencia?

E qual seria minha parte de esforço e sacrifício para que eles continuassem conseguindo conduzir-me?

 

Meu ego no altar para o Senhor

Permaneci fortemente inserida em meu interior e em profunda comunhão com Maria entre orações, rogos, conversas e meditações. Sentia os anseios, mas tudo entregava à Mãe enquanto seguia com minha marcha.

Na véspera do encontro com a referida pessoa cheguei ao ápice da aflição, e foi quando Deus me revelou o que eu poderia oferecer-lhe no altar:

Não meu cabelo, mas meu ego.

Apresentou-se em minha mente a imagem de mim mesma deitada em uma mesa branca, que era o altar do Senhor. Tratava-se da representação da morte do meu eu – meu ego, oferecida em seu altar.

Eu lhe ofereceria meu ego para que fosse mortificado. Mas como?

Anulando-o. Despojando-me de sua dor e reatividade. Acolhendo a pessoa que me desejava mal com amor e como se nada houvesse acontecido.

Deus havia trazido até mim dias antes duas pessoas que estavam lutando para perdoar e eu lhes havia dito sobre o caminho do perdão através do despojamento do ego. Mas até então eu teorizava. A teoria era bela, mas a prática, na carne, bastante difícil. Sentia medo e duvidava da minha capacidade.

Em profunda comunhão com Maria reconheci que, chegada a hora, eu sucumbiria. Era-me impossível olhar nos olhos da pessoa e tratá-la naturalmente bem. Minha débil parte humana venceria.

Então, em meu coração, Jesus revelou que eu não tinha forças para sacrificar meu ego (como parte de mim mesma) motivada apenas pela minha causa. Situou a mim diante dos demais com tais palavras: “que eu não fosse palavras mortas, mas testemunho vivo mostrando para quem lesse o caminho através da realização em mim mesma e inclusive descrevendo no livro*”.

Ao conceber sob aquele novo ângulo senti minha força se agigantar e que eu conseguiria oferecer um sacrifício pessoal daquele porte. Meu coração encheu de amor e lhe disse “sim”. Faria por amor e pela salvação dos demais.

Tal como Cristo fez - por amor e pela salvação dos demais.

Eu também o conseguiria fazer por amor a Deus, a Jesus e a Maria.

Nota:

* Este livro.

 

Conhecendo Cristo

Havia dias que não lia a Bíblia e fazia o diário espiritual. Havia os substituído por outras prioridades cristãs adequando-me ao tempo que dispunha. Sentia falta de fazê-los.

Na manhã do encontro acordei com um ardor inesquivável de dar continuidade a partir do último capítulo que lera. Quão feliz surpresa, pois, tratava-se do dia da traição de Judas.

Emocionei-me ao receber de Jesus o mais belo presente no dia que mais necessitava: seu exemplo de amor com aquele que o havia traído. Neste ele lava os pés de cada um dos apóstolos, incluindo Judas, dando-lhe exemplo de humildade, amor e do auxílio ao próximo que cabe a cada um.

Com este gesto mostrava-me que era com a força do amor e do exemplo que era possível ensinar e derrubar o inimigo. Que ao receber amor este desfalecia não sustentando-se mais no mal.

Que nisto constituía o “devolver o mal com o bem”, o esquecimento das ofensas, o perdão dos pecados alheios e o olhar para o próximo com bondade, oferecendo-lhe amor.

O mestre também me inspirava a recebê-la como se estivesse recebendo a ele próprio e, consequentemente, a Deus:

Em verdade, em verdade vos digo: quem recebe aquele que eu enviei recebe a mim; e quem me recebe, recebe aquele que me enviou” (João 13, 20).

Me senti unida a Jesus de uma forma tão profunda. Ele estava comigo e também Maria.

Orei:

“Que eu possa receber a pessoa como quem recebe a ti, Senhor.

E como vós recebestes a todos os pecadores que o ultrajaram e ofenderam;

Que eu possa oferecer a vós, em vosso Altar o meu ego, esta parte do meu eu, sacrificando-o e matando-o para que possa ser preenchida por vosso amor e virtudes;

Por amor a Deus, ao Senhor, a Maria e a todos os que vierem a ser tocados pelo meu exemplo.

E também pela salvação daquela alma que necessita de mais amor e de se sentir mais amada;

Que ela compreenda que lhe ofereço meu perdão pelas suas ofensas;

Conduza-me, Senhor, pelas suas mãos.  Fazei de mim um instrumento de vossa paz, amor, humildade, caridade, compaixão e piedade.

E que o vosso amor me preencha. Amém.”

Rezei o Terço para Maria rogando sua força, presença e amor. Elevei espiritualmente minhas mãos para o alto e segurei com uma mão a de Cristo e com a outra a de Maria dando-me em completo abandono para que me conduzissem.

Lá chegado estava serena, leve e feliz. Estava preenchida por um amor transbordante. Abracei a pessoa e conversei normalmente.

O sofrimento por não a perdoar havia desaparecido. Não me importava mais o que ela pensasse, sentisse ou realizasse ao meu respeito.

Sentia-me tão preenchida pelo amor que poderia oferecer-lhe não apenas o meu amor, mas o “melhor dos amores” possível a mim oferecer.

Nesta especial vivência compreendi que experimentei dentro de mim o amor de Cristo. Aquela plenitude e abundância de amor definitivamente não era minha. Era dele.

Mas para tanto tivera que retirar a parte da manifestação do meu ego com bastante esforço, oração, persistência e em comunhão profunda.

Após este sacrifício do ego e de ser preenchida pelo amor do Senhor, compreendi que era desta forma que eu o conheceria e que ele se revelaria para mim: por dentro.

***

Tempo depois duas pessoas as quais evangelizava, ao esvaziarem-se do ego, vivenciaram idêntica experiência de serem preenchidas por virtudes de Cristo.

O que fiz foi apresentar-lhes este Cristo Vivo, que reside em cada um de nós aguardando que o deixemos manifestar-se. Isto despertou neles consideravelmente a fé e o desejo de uma união mais íntima com Jesus.

 

Um degrau no crescimento espiritual

No dia seguinte notei que a dor de não-perdoar havia sumido. Sentia meu coração liberto num nível mais profundo. Era uma percepção maravilhosa nunca antes vivida. Não havia qualquer resquício de não-haver-perdoado. Havia paz, leveza e muito amor em relação à pessoa.

Meditava nos últimos acontecimentos quando me senti fortalecida. Algo muito grande havia acontecido dentro de mim. Crescera espiritualmente.

Havia entregado a Jesus algo que me era de muito valor e dera certo. Sentia-me como se tivesse passado por um “fogo provador” e já que havia conseguido, sentia-me forte o suficiente para continuar oferecendo-lhe tudo mais que tinha para a realização de sua obra.

Compreendi a verdade encerrada na frase: Tudo posso naquele que me fortalece.

Nada, nenhum obstáculo mais me seria impossível. Eu tudo poderia fixando o olhar exclusivamente no Senhor e nas suas causas. Ganharia forças incríveis para avançar e lutar e ele me sustentaria.

Jesus me mostrou num relance muitas outras mortificações do meu ego para oferecer-lhe. Tudo ficou mais claro.

Vinha omitindo de algumas pessoas que teria de passar por mais uma cirurgia e por isto deixava de oferecer o testemunho a uma delas, que me era muito cara. Jesus revelou que desta forma eu estava querendo controlar a situação, ou melhor, meu ego estava controlando a situação através da vaidade, vergonha e obstinação - sinalizando que eu ainda não havia entregado esta questão para Deus para que fosse feita a sua vontade e não a minha.

Ocorreu-me que poderia ser da vontade do Senhor que todos viessem a saber para que compreendessem os caminhos da dor pelos quais havia passado que justificavam meus passos em direção a Deus*. E para que aquilo fosse possível, eu teria que necessariamente matar meu ego e sacrificar todas suas reações para que imperasse com limpeza a vontade de Deus naquele aspecto da minha vida.

Sua vontade e não o meu melindre.

Senti amor e gratidão. Estava pronta para oferecer-lhe tudo de mim que fosse possível para que realizasse sua obra nos demais. E o faria por amor aos demais e a ele.

Sentiria prazer em oferecer a mim a ele e compreendi que se daria mediante o despojamento do meu ego.

Detalhou-se para mim que a mortificação do mesmo ego se daria nas mais diversas situações, tais como:

Diante do pensamento de vergonha, pois aquele que se sente envergonhado é o ego;

Diante do melindre, pois o que se melindra é o ego;

Diante do rechaço e da ofensa, pois quem se ressente e sente ofendido é o ego;

Diante da necessidade de ser amado, uma vez que as raízes do amor passional se encontram no ego.

E diante da necessidade de tudo controlar, que encontra motivos na sobrevivência a qual o ego se impõe.

Ao compreender a dimensão daquilo tudo curvei e pedi a Jesus que me mostrasse os momentos nos quais meu ego reagia para que pudesse combatê-lo.

Pedi também que me trouxesse diariamente pelo menos uma oportunidade de anulá-lo.

Ademais, sentia que minha testa seria deformada após a última cirurgia e que Jesus estava me preparando o coração para aceitar a vontade de Deus e despojar-me das manifestações do ego neste sentido.

Nota:

*Foi o que de fato aconteceu e Deus naquele momento revelava-me.

A verdadeira luta não é contra satanás, mas contra si mesmo

O que estava sucedendo era que Deus havia me colocado diante de mim mesma e eu estava conseguindo enxergar minhas próprias inclinações negativas e era contra elas que estava tendo que lutar.

Percebia-me sob forte proteção espiritual e por isso livre dos ataques de satanás. Ademais, vinha estando recolhida em meu interior num processo de meditação, busca e orações.

Então compreendi que a verdadeira luta não era contra satanás, mas contra mim mesma, contra minhas más inclinações, contra meu próprio ego.

Deus me colocava diante de mim mesma, do meu ego, para que eu conhecesse meu maior inimigo.

 “Ninguém, ao ser tentado, diga: Sou tentado por Deus; porque Deus não pode ser tentado pelo mal e ele mesmo a ninguém tenta. Ao contrário, cada um é tentado pela sua própria cobiça, quando esta o atrai e seduz. Então, a cobiça, depois de haver concebido, dá à luz o pecado; e o pecado, uma vez consumado, gera a morte. Não vos enganeis, meus amados irmãos”. (Tiago 1, 13-16)

Perguntei a Deus como poderia então aniquilar meu ego.

A resposta foi: “sempre que ele se manifestar, não alimente a ele, mas a Deus”.

Ou seja, sempre que o ego se manifestasse, renunciaria a ele e o entregaria a Deus. Abrir-me-ia para o que viria de Deus e o permitiria se manifestar em mim.

 

Eu e meu ego

​Foi assim que Deus clareou para mim que eu não era o meu ego.

Eu era algo além. Havia uma separação e por isso podia matá-lo, aniquilá-lo mediante uma forte e perseverante vontade resistente a toda prova. E no meu caso não sozinha, mas unida a Deus.

Este era o caminho pelo qual seria possível robustecer a parte de mim que pertencia diretamente a Deus: minha parte divina.

A porta de entrada para satanás se dá através das manifestações do ego

​Uma vez compreendido que nossa primeira luta diante de Deus deve-se dar contra nossas más inclinações, ficou claro que era através das manifestações do ego que se abriam as portas interiores para que satanás entrasse, sendo estas então a causa primeira que deveria ser combatida.

Quando me encontrava vigilante e em oração, atenta às manifestações do ego, conseguia matá-lo “vedando” assim as portas interiores de modo que satanás não tinha por onde entrar. Liquidava o mal em sua raiz.

Por outro lado, quando não conseguia renunciar à sua manifestação, lá estava a porta de entrada por onde satanás entrava e não tardava até que surgissem os primeiros prejuízos.

Isto porque, antes de satanás, meu primeiro inimigo estava em mim mesma e disposto no meu ego.

De forma que jamais somos vítimas de satanás, mas responsáveis por atraí-lo a partir das nossas más inclinações quando estas imperam deliberadamente sob o comando do ego.

 

Os dias seguintes após a manifestação de Cristo dentro de mim

​Mencionei que no dia seguinte da manifestação de Cristo dentro de mim notei meu coração liberto da dor de não perdoar e mergulhado numa paz e amor abundantes para com a pessoa.

Entretanto, passados alguns dias, a mesma voltou à minha recordação acompanhada, para minha surpresa, do  ressentimento de antes.

Não compreendia como aquele sentimento podia ter voltado dado todo esforço e Jesus haver me preenchido com seu amor e curado meu coração. O que deveria, pois, fazer? Repetir tudo novamente?

Senti minhas forças falirem.

Retornou a sensação de incômodo pela minha alma e corpo estarem a repelir aquele estado de não-perdoar e a dor que este acarretava.

Segui os dias vivenciando idênticas oscilações e lutas de outrora: invadia-me o ressentimento e o desconforto pelo mesmo causado, e por vezes alcançava o perdão mediante orações e súplicas para a libertação daquelas dores que me afligiam.

Perdoar e ser perdoado

​Havia outra pessoa em meu passado de quem me afastara por não conseguir perdoar. Acontecera nos anos anteriores quando vivenciava uma série de lutas de ordem física e espiritual.

Maria começou a trazê-la repetidas vezes a minha recordação. Num primeiro momento sentia ressentimento para num segundo invadir-me o amor. Estava compreendendo o que me cabia fazer, mas postergava.

Até certa vez sentir forte no coração a oportunidade de sacrificar meu ego, oferecendo-o a Deus. Contatei-a, pedi perdão por haver me afastado, justifiquei os motivos e a perdoei.

Ela, devota de Nossa Senhora, me acolheu afetuosamente dizendo haver orado por mim nos últimos anos*. Restabelecemos nosso vínculo e meu coração foi liberto da dor do ressentimento.

***

Então Deus me mostrou o caminho de recordar de todas as pessoas que não perdoara, retomando-lhes o contato, apresentando meus motivos e oferecendo-lhes meu perdão.

E da mesma forma pessoas a quem havia ferido no passado, pedindo-lhes perdão.

Escolhi um amigo a quem ferira e que havia se afastado de mim, não me dando chance de pedir-lhe desculpas. Enviei-lhe mensagem justificando e pedindo perdão pelas minhas ofensas. Também o perdoava por haver se afastado bruscamente. Este jamais respondeu. Mas o importante era o movimento que eu havia feito diante de mim mesma e de Deus. Já como ele reagiria, cabia a ele e a Deus.

Havia outras pessoas para contatar e perdoar ou pedir perdão. Alguns casos eram mais difíceis, mas o que importava era que Deus havia aberto para mim mais um campo de realização. Compreendi que quanto mais meu coração fosse limpo e liberto de cargas e dores desnecessárias, em melhores condições estaria para ser somente amor.

***

O que vivenciei neste sentido foi que Deus colocou dentro do meu coração a inspiração, o convite e a valentia, mas foi eu mesma que tive que sacrificar as nuances do meu ego para culminar no ato e, ao longo de todo processo, pude contar com a certeza da presença e amparo de Jesus, que ao final preencheu meu coração com seu puríssimo amor.

No dever de permanecer sincera expresso que, pelo fato do meu amigo não haver me respondido, o ressentimento retornou e novas lutas para perdoá-lo se seguiram, porém de forma cada vez mais suave.

Nota:

*Numa visita a sua casa, Nossa Senhora me fez sentir a quantidade de orações a ela endereçadas por mim.

 

O perdão definitivo somente com Cristo

Em momento tão oportuno veio a mim a mensagem de Jesus em que ele diz que ninguém é capaz de alcançar o perdão definitivo sem sua ajuda.

 “Jesus:

Porque te amo e porque preciso da tua ajuda, quero dar-te a oportunidade de encontrares mais paz no teu coração. Para Mim é claro que muitos sofrem de feridas escondidas. A única maneira de curar estas feridas é aquele que carrega as feridas perdoar àquele que lhes infligiu. Meu querido filho, isto pode ser difícil. Quando uma ferida encontra um abrigo no coração, sente-se confortável nesse abrigo. A ferida tem de ser desalojada e levada para outro lado. É necessário haver o desejo de perdoar e o espírito de perdão, porque são estas as coisas que fazem com que aquela ferida se sinta desconfortável. A ferida começa então a desalojar-se. Isto reaviva a dor, mas só temporariamente até a ferida ser pura e simplesmente removida.

É este processo que Eu quero começar em ti. Se prosseguires Comigo neste processo de perdão, verás que o perdão inundará o teu coração. As tuas feridas desaparecerão. Eu tenho o poder de curar cada uma das tuas feridas. Quando tentas fazê-lo só, não tens sucesso e percebes que a amargura persiste. A amargura é característica do Meu inimigo. O perdão é a Minha característica. Tu, um filho amado de Deus, procuras encontrar paz no teu coração. Só encontrarás paz se entrares para a torrente da bondade. Esta torrente é como um rio de graças com o qual Eu te desejo banhar, removendo toda a dor e todas as feridas. O que ficará na tua alma será alegria. Esta alegria, esta paz celestial, será obtida através da aceitação das tuas faltas e através da aceitação das faltas dos outros.” (Mensagem de Jesus de 13.12.2006 do livro O Céu fala àqueles que lutam para perdoar)

As palavras de Jesus explicavam o porquê das lutas incessantes e porque em determinadas vezes conseguia enquanto noutras não. Explicava também o desconforto sentido em minha alma em desejar expurgar a dor de não perdoar e o desejo de ser somente amor.

Tudo se devia ao fato de que era ele quem conseguia derramar seu amor e perdão em meu coração. Mas, para tal, eu deveria fazer a parte de esforço que me cabia incluindo o exercício de perdoar a todos, pois era neste que as curas iam acontecendo.

Saber disso me tornou ainda mais dependente dele, de uma união mais profunda, da sua ajuda e do seu amor tão tenro.

 

Mensagem de Nossa Senhora em Medjugorje

(02.07.2018)

Uma amiga me enviou uma mensagem dada por Nossa Senhora a uma vidente em Medjugorje. Seu conteúdo me tocou por tratar do que vinha vivenciando e aprendendo desta nova vida e também por ela se apresentar com toda a pureza e como caminho de união à Jesus:

“Queridos filhos, eu sou mãe de todos vocês e por isso não temam, porque eu sinto as suas orações. Eu sei que vocês me procuram e por isto eu peço a meu filho por vocês: meu filho que está unido ao pai celestial e ao espírito consolador; meu filho que conduz as almas ao Reino do qual ele veio. O Reino da paz e da luz.

Meus filhos, a vocês é dada a liberdade de escolher. Eu porém, como mãe, os peço para escolherem usar a liberdade para o bem. Vocês, que tem almas puras e simples, compreendem e sentem dentro de vocês qual é a verdade, mesmo que às vezes não compreendam as palavras.

Filhos meus, não percam a verdade e a verdadeira vida para seguirem a falsa. 

Com a verdadeira vida o Reino dos céus entrará nos seus corações, e este é o Reino da paz, do amor e da harmonia.

Então, filhos meus, não existirá nem mesmo o egoísmo, que os distância do meu filho. Existirá amor e compreensão ao seu próximo.

Para que se lembrem, eu repito novamente: rezar significa também amar os outros – o próximo – dar-se a eles. Amem e deem-se ao meu filho e então ele trabalhará em vocês.

Filhos meus, pensem em meu filho sem cessar, amem-no imensamente e terão a vida verdadeira, que durará toda a eternidade. 

Obrigada, apóstolos do meu amor.”

(Mensagem de Nossa Senhora em Medjugorje em 02.07.2018)

Instrumento perfeito de Jesus

Bela era a forma como vinha sendo conduzida interiormente inspirada pelos Céus. Eles iam revelando-me o caminho interior e os passos que deveria dar sempre com muita brandura e amor.

Desde que entendera o alcance do significado de ser um instrumento de Jesus, havia abraçado a prática em espírito de entusiasmo e obediência, referindo ao evangelizar na parte de instrumento que devemos ser movidos pelo sentimento de despertar outras almas para também trabalharem para o Senhor.

Numa noite em oração meu coração encheu de amor e os pensamentos que surgiram foram que “eu não queria ser apenas um instrumento de Jesus, mas um instrumento manso e humilde e por isso, perfeito”.

(chamou-me atenção a precisão desta última palavra)

“... pois, somente desta forma, Jesus poderia me levar para onde ele quisesse, fazer o que ele quisesse, quando ele quisesse e para as pessoas que ele quisesse. Deveria ser como uma marionete nas mãos de Jesus. E, para que fosse possível, deveria me esvaziar do meu ego”.

Era meu ego que lhe oporia obstáculo na execução da sua vontade.

Afinal era este que criava obstáculos, escolhia, negava, postergava, se envergonhava e eu deveria anulá-lo para me tornar um instrumento perfeito de Cristo.

Testemunhando em público

Desde a saída do hospital testemunhava às pessoas e recebi de algumas o convite para fazê-lo em público. Meu coração exultava, mas recusava alegando dificuldade com as crianças, esposo e logística. A verdade é que não estava pronta para enfrentar todas as implicações que condiziam com este passo. Por isto esquivava.

Ainda no hospital acolhera esta ideia com amor e entusiasmo quando Deus mesmo em sua primeira vez me revelou em imagem que ofereceria meu testemunho publicamente.

Segui meditando paulatinamente a este respeito ao longo dos meses até que numa noite tudo clareou num chamado do Senhor para mim. Meu coração ardeu sentindo sede de fazê-lo, pois Jesus havia o preparado para isto mansa e gradativamente.

Um convite chegou trazido pelas mãos de Maria. Era impossível recusá-lo. Tratava-se de um grupo de jovens intitulado Colo De Mãe. Dei-lhes meu “sim” confiando que Maria me ajudaria a me organizar para honrar com minha palavra.

Mas se por um lado meu coração estava pronto, pelo outro nem tanto. Eu não podia voltar atrás, pois moralmente havia dado meu “sim” a Maria. Só podia seguir adiante.

A vontade de Deus se fez ainda mais evidente ao trazer na mesma semana outro convite para testemunhar a outro grupo Mariano de jovens, a quem também dei  meu “sim”.

Era a primeira vez que assumia tais compromissos diante de Deus, mas como executá-los?

O primeiro passo deveria ser sair da sombra às claras. Compreendi que até então dedicava-me a Deus, porém restrita ao meu círculo, sem incomodar ninguém, selecionando as pessoas e silenciando para outras. Estava fazendo do meu jeito.

E Maria me convidava a dar aquele grande passo adiante, rompendo com meus critérios pessoais e assumindo meu amor e serviço a Cristo diante de todos e independente de como me julgariam.

Mas, antes deste, teria que dar meus primeiros passos dentro da minha família em direção ao esposo e minha mãe, que ficaria com as crianças. E como faria isso?

Oferecendo meu ego em sacrifício e renunciando a todos os medos e vergonha de possíveis ataques, críticas, deboches, julgamentos e oposições. Entregando tudo para Deus e seguindo em frente.

Jesus desta vez me pedia um grande passo para a mortificação do meu ego que era me assumir publicamente. E eu o faria por amor a ele, a sua obra, a Deus e a todos que seriam por ele tocados através das minhas palavras.

Aquele constituía um passo tão sério que, caso eu o suspendesse, ele não conseguiria continuar me conduzindo conforme era da sua vontade.

Fazia todo sentido aquele propósito de me tornar um instrumento manso e, por isso, perfeito dele.

Desta forma seguia Jesus me lapidando para sua obra.

***

Recordei-me da passagem da videira na Bíblia na qual ele poda os galhos para que ela dê cada vez mais frutos:

Eu sou a videira verdadeira, e meu Pai é o agricultor. Todo ramo que não der fruto em mim, ele o cortará; e podará todo o que der fruto, para que produza mais fruto.” (João 15, 1-2)

Falar com minha mãe não foi tão difícil.

Quanto ao esposo decidira inicialmente lhe omitir. Afinal, que mal poderia haver? Porém cogitar a omissão me causava mal-estar e uma dor que meu corpo e alma repeliam. Uma pessoa de Deus havia me falado que no relacionamento conjugal um devia sempre ser verdadeiro com o outro. E que na vida deveríamos sempre nos apoiar na verdade e diante de Deus. Que dizer naquele caso em que a verdade dizia respeito ao próprio Jesus Cristo. 

Entrei em oração entregando o esposo à Maria bem como a conversa que teríamos. Tinha certeza que somente ela tinha o poder de preparar-lhe o coração para receber o conteúdo da melhor forma possível e para o bem de todos. Faria a parte que me cabia contando que ela faria a sua.

No diálogo fui a mais verdadeira possível. Ele se assustou, mas acabou aceitando com algumas ressalvas* e por fim respeitou. Maria derramou em nosso diálogo sua doçura, amor e respeito um pelo outro.

Mais uma vez minha cruz se fazia tão doce através da sua intercessão.

Aquele passo fora vencido e eu crescera ainda mais na confiança de caminhar unida aos Céus.

De fato, não havia limites e eu “tudo poderia naquele que me fortalecia” e em sua Mãe, minha e de todos nós. Mas deveria colocar necessariamente minha parte de sacrifício, renúncia e fidelidade.

 

Abandonando-me à lapidação por Cristo

Nessa altura tinha plena certeza de que Jesus me preparava para crescer nele de modo a aprender a receber toda sorte de injúrias e não sentir dor quando tivesse saído às claras de forma mais abrangente.

Ele me conduzia pelo caminho da renúncia do ego para que os ataques não doessem e me paralisassem e para que eu o mantivesse como única meta e fim.

***

A cada passo incorporava sabedoria e crescia no Senhor, naquilo que ele desejava para mim.

Mas fato é que não sabia precisar em que me tornaria.

Porém me sentia pronta para abandonar a velha Luciana (que sentia não me acrescentar nada mais de novo na vida) para nascer em uma nova que totalmente desconhecia.

E afinal, eu não tinha mesmo que saber em que me tornaria.

Ele sabia, isso me bastava e eu me abandonava à sua lapidação.

 

Maria, colaboradora da Obra de Cristo

Junto ao testemunho em público culminaram na mesma semana outros aspectos referentes a minha saída à luz.

Dois meses antes havia tido um sonho incomum com marcante vivacidade e durante o qual sabia ser conduzido por Nossa Senhora. Neste eu deveria mandar confeccionar pequenos folhetos (a caber numa carteira) com ambos testemunhos do hospital, de Jesus e de Maria, e criar um site a ser canal da divulgação dos mesmos, deste livro e de uma vida em Cristo.

Eu não havia os finalizado até sentir forte no coração a necessidade de culminá-los. Compreendi como mais um movimento de Maria no sentido da minha saída das sombras à luz e da realização da sua obra – que é a condução das pessoas até seu filho (esta foi a compreensão que despontou em meu coração).

Finalizei-os com pessoas as quais ela trouxe até mim. Os pequenos testemunhos deveriam fazer referência ao livro e ao endereço do site. 

Através destas palavras exemplifico como é trabalhar com Deus. Não é possível negar ou postergar as coisas por tempo indeterminado à mercê da própria vontade. Chega-se uma hora em que é necessário partir para o ato.

***

Os testemunhos em público foram puros, singelos e intensos. Havia pedido a Maria nas semanas que os antecederam que preparasse os corações dos jovens de modo a acolhê-los num nível profundo. Depois agradeci, louvando-a pelo seu imenso amor e contribuição para a obra de Jesus Cristo na Terra, recolocando-me com o mais puro amor novamente a sua disposição.

 

Abraços e mais abraços

De repente dei-me conta que no dia a dia estava recebendo abraços muito calorosos e largos sorrisos das pessoas a quem evangelizava e havia testemunhado.

Então sobreveio-me que não era eu a merecedora destes, uma vez que de mim mesma eles não haviam recebido nada.

Aqueles abraços eram endereçados a Jesus e a Maria. Eram eles que as pessoas abraçavam com tanto entusiasmo, felicidade, gratidão e amor.

Tudo então fez sentido.

 

Sendo verdadeira diante de Cristo

Havia crescido no aprendizado de ser verdadeira com o esposo e minha mãe. Não importava quem fosse e acontecesse o que acontecesse, para trilhar a caminhada de Cristo eu teria que ser fiel unicamente ao mesmo e estender suas verdades a quem quer que fosse independente do que poderiam achar.

De nada adiantaria para Jesus se eu fosse uma seguidora que silenciava.

Ou estava com ele, ou não.

Não era um caminho fácil, mas seguia me exercitando em divulgar ele e seu Evangelho de Amor.

Certo dia conversava com uma pessoa que dispunha de um ponto de vista diferente do meu quanto à moralidade que se deve uns aos outros. Esta defendia a postura errônea de um em função da postura errônea dos demais. Não se tratava de um diálogo fácil e por vezes considerei interromper, mas o tempo todo me colocava diante do Senhor. Até que ele me infundiu perseverança e pude sustentar até o fim meu ponto de vista sobre a retidão moral e de cada um ser um agente de mudanças nos demais. Finalizamos cada um com as mesmas convicções de antes. Mas eu havia defendido a justiça e a moralidade pregada por Cristo e ao final me percebi infundida em sua paz e alegrando-me nele, em sua alegria.

Jesus colocou em meu coração que eu não tinha que esperar mudanças rápidas nas pessoas, apenas seguir adiante com uma postura de retidão e lançando sementes de moralidade que um dia, quando chegado o momento, ele mesmo faria a parte da sua obra naquela pessoa, pois isto pertencia a ele exclusivamente.

A nós cabe somente a semeadura.

A colheita pertence toda ao Senhor e se dá no seu tempo.

 

Terapeuta de almas

Nos primeiros anos do meu processo de saúde vivi estados de depressão intermitentes em função da sucessão de cirurgias sem que alcançasse o resultado almejado. Foi através de terapia que consegui mudar a forma de olhar para mim mesma, para os demais e para a vida substituindo a posição passiva de vítima pela de auto responsabilização. Senti o chamado interior de tornar-me terapeuta para, da mesma forma que fui ajudada, ajudar os demais. Montei consultório e começaram a chegar os primeiros pacientes.

Tudo seguia seu curso até o encontro com Cristo e ele mudar substancialmente minha forma de me situar na vida. A partir disto não desejaria profissionalmente nada para mim que não fosse da sua vontade. A atuação como terapeuta ficou suspensa por algum tempo e segui aguardando nele para o que desejasse para mim. Foram meses de espera da minha parte e de silêncio da parte dele.

Enquanto isso inúmeras pessoas eram trazidas a mim para serem evangelizadas. Ouvia-as em seus problemas, angústias e limitações.

Numa noite em oração a Nossa Senhora senti forte no coração o desejo de ser terapeuta. Emergiram em minha mente as palavras: ‘terapeuta de almas’. Detive-me a alcançar a significação daquele profundo conteúdo.

Passei a me perguntar de que forma aquilo poderia ser possível.

Jesus então revelou em meu coração que eu aprenderia na prática com as almas que seriam a mim trazidas. Passei a acolhê-las na posição de terapeuta e a auxiliá-las acrescentando-lhes a evangelização e os testemunhos de uma vida em Cristo. Tudo era muito novo e confiava na vontade e direção do Senhor.

 

Terapeutas em Cristo

Um dia questionei-lhe qual seria a necessidade de psicólogos e terapeutas se Jesus tinha por si o poder de transformar e curar cada indivíduo bastando que o mesmo a ele se unisse.

Deus então, através das almas que me eram trazidas, me revelou que as pessoas apresentam particularidades que limitam suas vidas originadas de sua conformação psicoemocional. Que esta lhes gera problemas e dificuldades que podem ser tratados à luz da psicoterapia de autoconhecimento e resolução dos conflitos interiores para que cheguem a bastar a si mesmos como agente de mudança pessoal uma vez libertos das limitações psicoemocionais de antes.

E que tal caminho deveria ser o motivo da realização pessoal e profissional dos profissionais envolvidos nesta área da saúde.*

Além disto, por saber que é o próprio Cristo quem trata e liberta suas almas de suas questões condicionantes, os profissionais destinados a tratarem de suas almas se constituiriam em agentes de sua providência e instrumentos em suas mãos.

Compreendido isto, caberia a mim encontrar o lugar que me devia como instrumento de Jesus em minha profissão oferecendo o meu melhor e entregando esta outra área de minha vida à sua condução.

***

Na sequência um paciente me contactou para iniciar a terapia. Vi-me absolutamente diante da vontade do Senhor para mim e eu teria que aprender a atuar como terapeuta inserindo aos conhecimentos de outrora os que estava aprendendo de uma vida em Deus.

Tudo era tudo muito original e não possuía referências pessoais senão colocar-me no mais perfeito abandono a Cristo, confiando estritamente em sua condução. A única certeza que tinha era de estar sendo lhe fiel.

Assim seguiu-se da primeira às sessões seguintes. Havia pontos a serem ajustados, pois o tratamento a partir de então se daria à luz do Evangelho de Amor de Nosso Senhor.

Logo compreendi que tratava de eu conhecê-lo para vivenciá-lo e poder ensiná-lo, transportando-o para os aspectos pessoais da vida dos pacientes para que pudessem viver o caminho de Deus em suas vidas.

***

Durante meses resisti em acrescentar este capítulo ao livro dada a reserva e o desejo que não soasse como autopromoção.

Mas a esta altura da minha vida, Jesus me fez saber que tal conteúdo não se tratava apenas de mim e trouxe à minha mente a imagem de inúmeros terapeutas e psicólogos que se sentiriam chamados a aderir à sua causa inserindo a evangelização em seus consultórios.

E não apenas isto: “que se acaso aquilo parecia estranho nos tempos vigentes, deveria considerá-lo como normal na Era Vindoura”.

Nota:

*Mais adiante compreendi que Jesus, mesmo tudo podendo fazer, nos chama a colaborar em sua obra, meio pelo qual nos é possível servir, praticar a caridade e exercitar nas virtudes celestes.

Vivendo no silencio interior

Fui aos poucos aprendendo que para viver em Deus era necessário viver no meu silêncio interior, acostumar-me a voltar a atenção para dentro de mim e silenciar.

Ao me recordar de como era antes, ocorreu-me que sempre fora uma pessoa  circunspecta, mais voltada para meu interior do que para fora, para o mundo. Sempre preferi, por exemplo, minha vida interior do que a exterior e social e me achava meio estranha por isso. Mas o que fazer?

E quando ingressei no hospital com a decisão de buscar Deus onde quer que ele estivesse, internalizei ainda mais em meu interior, passando a ali morar. Focava em minhas questões e abria-me às reflexões, que depois compreendi me conduziam a meditações.

Havia televisão no quarto e pouco cedia a suas distrações. Já havia me libertado disto alguns anos antes por considerar a maioria dos conteúdos superficiais e desnecessários, sem mencionar a carga de negatividade. Preferia estar na companhia de mim mesma dentro de mim.

Recordo-me com carinho de uma paciente na terceira idade que comigo dividiu o quarto. Ela era de Deus, firme na fé e nas tardes permanecia deitada quietinha, contemplando o “nada” com um semblante que infundia paz. Por mais de uma vez lhe disse que podia ligar a tv, mas sempre recusava agradecendo. Permanecíamos nós duas desfrutando do silêncio e contato com Deus. Já sua acompanhante não tinha outra opção a não ser nos fazer companhia ainda que forçadamente em silêncio.

Esta senhora me testemunhou seu encontro em sonho com Jesus e disse viver sua rotina sob as graças dos Céus registrando-as no papel, obedecendo assim à vontade do Senhor. Encadernava os escritos e os distribuía. Vivia num estado permanente de comunhão com Deus.

Eu, pelo que caminhara até então, ressalto que o caminho para escutarmos Deus e acolhermos suas orientações, conselhos e vontade somente é possível morando no próprio interior. Dando a este a hierarquia que lhe cabe.

Há uma frase que diz que “nosso interior é o templo sagrado onde entramos em contato com Deus”. Esta é a mais absoluta verdade.

Tanto é que satanás deseja roubar-nos de nós mesmos e de Deus inserindo tantos barulhos, distrações e frivolidades em nossas vidas, fazendo-nos assim considerar que tudo isto é normal quando na verdade o que está acontecendo (e ele muito bem sabe disto) é que vivendo assim torna-se impossível alcançar uma verdadeira vida em Deus.

Jesus diz assim:

Neste momento gostaria de falar diretamente às almas. Há muitas almas que chamam por Mim. Elas pensam que Eu não ouço. São elas que não ouvem. Não estão a escutar a Minha voz, que deve ser ouvida no silêncio dos seus corações. Uma alma que não se coloca num verdadeiro estado de tranquilidade não Me conseguirá ouvir. Tu, Minha filha, acabaste de fechar os teus ouvidos e fechaste os teus olhos durante dez minutos para te centrares completamente em Mim. E nós estamos a comunicar de um modo sobrenatural. Mas tu percebes que para Me poderes ouvir, e contigo sempre assim foi, deves resistir às distrações barulhentas do mundo que, à medida que os dias se sucedem, se tornam cada vez mais ensurdecedoras.

Eu gostaria de encorajar as almas a eliminar o barulho das suas vidas. Apagai as televisões. Desligai os rádios. Há muitas conversas que seria melhor nem sequer existirem. Neste novo silêncio, as almas vão ter o seu coração numa atitude de recolhimento. No seu coração em recolhimento, vão conseguir encontrar-Me, a Mim que tenho estado à sua espera.” (Pensamentos sobre espiritualidade, p.93)

Relacionando-me com Deus no silêncio interior

Era morando no meu silêncio interior, atenta a todos meus nuances internos, em permanente estado de meditação e oração que se estabelecia a conexão com o Alto.

Esta postura me permitia, diante de um sentimento ou pensamento, me perguntar se o mesmo era meu ou do inimigo, ou se era da minha vontade ou da vontade do Senhor. Neste último caso ficava no aguardo da resposta até que ele me enviasse sinais dentro ou fora de mim e até que tivesse certeza que era dele.

À medida que vivia este novo relacionamento ia apurando minhas percepções, ajustando a melhor forma de me colocar e conhecendo como os Céus se comunicavam comigo e me conduziam.

Às vezes Deus me pressionava para realizar e caminhar para frente.

Em outras me trazia a resposta pela boca de outras pessoas tal como próximo ao testemunho em público quando mais de uma pessoa profetizaram a respeito.

Neste processo todos os sinais internos e externos deviam ser tidos em conta.

Não devia restar dúvidas quando o relacionamento e compromisso eram com Deus. E durante o tempo que uma dúvida permanecesse seguia endereçando lhe nova pergunta e aguardando no silêncio do meu interior.

Quanto aos mais diversos questionamentos a resposta às vezes demorava e em outras vinha rápido. Achava belo e humilde endereçar a pergunta a Deus, esperar nele e recebê-la.

Ia assim aos poucos aprendendo e deixando-me ser conduzida exclusivamente pela sua vontade. Quando não conseguia, lhe dizia e pedia auxílio.

De forma alguma vinha aprendendo aquele caminho sozinha. Eram eles mesmos quem me ensinavam e conduziam.

Há pouco havia escutado uma frase que dizia “À medida que se caminha, o caminho se abre”. E o caminho para Deus não era diferente disto.

***

Exemplifico como se deu em meu interior quando me encontrava presa na posição de não querer que determinadas pessoas soubessem que ia operar mais uma vez e por causa disto evitava levar o testemunho a uma delas de quem gostava por receio que contasse às demais.

Certa vez Deus revelou ao meu coração que todos saberiam da verdade sobre a ausência do osso da minha testa e da próxima cirurgia.* E que através desta tomariam contato com minha dor e calaria fundo em seus corações minha caminhada de união e serviço a Cristo.

A princípio eu definitivamente não queria que soubessem. 

Porém Deus tem seus meios de me preparar interiormente até que recebesse sua vontade com o coração sereno e disposto a acatá-lo. E não apenas isso, em paz e alegria.

Assim se deu:

Na primeira vez que ele me revelou, não aceitei.

Então ele continuou mostrando-me de novo e de novo até que já não me surpreendia mais e me abstinha de me posicionar.

E um dia ele me mostrou e eu aceitei como algo absolutamente normal e sentindo paz.

No entanto isto não significou que posteriormente eu não viesse a viver lutas interiores. As lutas mudaram no sentido de eu honrar com minha palavra sendo-lhe constante no meu “sim”.

Isto porque aquele motivo ainda era difícil para mim. Mas deveria continuar curvando-me à vontade maior e submetendo-me, esvaziando-me, despojando do meu ego diariamente como num treinamento até me condicionar e ficar apta a ser inteiramente de Deus.

Nota:

*De fato todos vieram a saber e não foi através de mim.

Músicas na mente

Tão logo retornara do hospital ao lar passara a notar uma música em minha mente sem que houvesse planejado. Tratava-se da Ave Maria de Gounod. Após algum tempo compreendi que significava a presença e a proteção espiritual de Maria. E mais: a doce Mãe queria que eu tivesse certeza disto, de que me encontrava diante da sua puríssima presença.

Ao buscar esvaziar minha mente de pensamentos desnecessários e repousar no silêncio e na presença de Deus, os Céus vinham ocupá-la com músicas celestiais.

É sabido que quando a mente está vazia e ociosa, afastada de Deus, dá entrada para o inimigo. Mas aquele não era meu caso. Pelo fato de buscar um esvaziamento em Deus, os Céus a ocupava com sua presença e amparo.

O repertório se ampliou e as músicas passaram a remeter a Cristo e ao Espírito Santo. Agradecia em profunda gratidão.

Ainda no hospital, a querida agente da pastoral enquanto percorria o corredor de quarto em quarto cantarolava músicas cristãs. Numa das vezes referiu que era uma forma de ocupar sua mente resguardando-a das invasões do maligno. Naquilo ela me deu um valioso conselho que fez muito sentido.

Assim, ou eu mesma buscava ocupar minha mente com músicas celestes ou os Céus o faziam por mim.

***

Meses depois notei que o contrário também acontecia.

Minha mente era invadida por uma música comum, do mundo, não religiosa. Era uma forma do inimigo entrar e relaxar minha vontade, vigilância e defesa, distrair-me e me roubar de Deus.

Sobrepunha a mesma uma religiosa ou orava a Deus.

 

Meditação

Foi também aos poucos que minha mente se condicionou a entrar em estado de meditação. Só depois de muito tempo compreendi tratar-se disto.

Ao ler ou escutar algo que me tocava em Deus, acolhia seu conteúdo e este seguia aos poucos se desdobrando trazendo uma ou outra sabedoria. Tal processo se dava paulatinamente. Eu não conseguia apressá-lo, apenas dava-lhe espaço e acolhida em meu coração e permanecia em silêncio interior para que ele seguisse por si seu percurso. Não se tratava de um processo continuado. Aquele estado interior era interrompido para que atendesse aos inúmeros pensamentos e compromisso exteriores e ao retornar ao mesmo eis que surgia uma compreensão maior, original. Esta podia demorar dias ou semanas. Desta forma Deus ia trazendo-me sua sabedoria.

Noutras palavras, meditar é abrir a mente, o coração e o espírito para a sabedoria dos Céus sem querer controlar as reflexões ou apressar o tempo, mas mantendo-se num estado de completo abandono e confiança de que o próprio Deus fará a sua parte, conduzindo pelo caminho da sua sabedoria.

Minha rotina era absolutamente normal e repleta de demandas exteriores. A diferença era que sempre que encontrava um tempo mental fugia para meu interior, que era onde mais passara a gostar de morar.

Diante do maior mestre e guia de todos os tempos

Um dos aspectos que despontou em mim a partir da fase adulta foi a necessidade imprescindível de usar minha vida para o crescimento interior, o aperfeiçoamento de mim mesma.

Passei por filosofias sempre buscando um mestre, um guia que me servisse de inspiração, exemplo. Mesmo diante das lutas e quedas dada as imperfeições, sempre respirava fundo e jamais desistira de tentar avançar. Assim seguira entre passos e tropeços.

Até vir Jesus se revelar para mim:

Como a maior fonte de inspiração. Por reunir em si todas as virtudes e exemplos os quais podia seguramente me espelhar e esforçar para imitar.

Como guia. Pois somente ele conhece os caminhos interiores que deveria percorrer e os passos internos que deveria dar, além de possuir as chaves e o livre acesso ao meu interior.

Jesus ainda tem o poder de inserir dentro de mim pensamentos e sentimentos santos, dispondo em mim o que lhe pertence para que eu vivencie o processo da minha santificação.

Por tudo isto descobri estar diante do maior e melhor mestre e guia de todos os tempos. Aquele que reúne em si todas as excelências necessárias que eu jamais poderia haver imaginado.

É ele quem me conduziria seguramente no caminho da minha salvação e união com ele. E por meio dele com o Pai.

Jesus preencheu assim todas minhas aspirações de ser melhor e ainda me ofereceu muito além dos meus mais elevados ideais.

***

Por tudo isso, a ele toda honra e toda glória pelos séculos e séculos e exaltado seja seu santíssimo nome hoje e sempre.

E por tudo mais que minha compreensão jamais conseguirá alcançar, ele proclama ser:

O Alfa e o Ômega, o Primeiro e o Último, o Princípio e o Fim” (Apocalipse 22:13).

Ele é o grande Senhor que resume e condensa tudo quanto existe.

***

Que este livro seja um ato de louvor ao Nosso Senhor Jesus Cristo.

Que o glorifique no Pai e nos corações de todos que o lerem.

Não posso ter desejo maior no coração do que Nosso Senhor Jesus Cristo ser louvado por todas as criaturas até o fim dos tempos.

A mudança que faltava era minha conversão

Uma amiga vinha enfrentando um problema de saúde parecido com o meu, entretanto na mandíbula. Passara por inúmeras cirurgias, uma fístula abrira para drenar, tivera osteomielite e tomara antibióticos semelhantes aos meus. Era ora uma ora outra internando e visitando uma a outra.

Já havia lhe apresentado os testemunhos e ela sabia que eu estava numa caminhada com Cristo. Operou uma vez mais e seu corpo rejeitou a prótese. No entanto desta vez acrescentou que conseguia sentir paz e que a partir de então somente Jesus resolveria.

Quando assim se referiu fui tomada de comoção nunca antes sentida. Lágrimas escorreram em abundância, pois me encontrava em oração por ela para que Deus a sustentasse na dor e que conhecesse Cristo tal como eu estava conhecendo. E a forma na qual se referira me fez ter certeza de que estava pronta para deixar que ele entrasse e a conduzisse*.

Quis ir ao seu encontro acrescentar algo a mais sobre Jesus, mas não queria ser inoportuna, repetitiva. Pedi fervorosamente ao mesmo que me trouxesse um elemento novo para oferecê-la.

E o que ele me trouxe foi original até para mim:

Durante todos os anos vividos com a fístula na cabeça levei comigo aquela dor que me afligia. Ao fazer os curativos diários por vezes perguntei para Deus o que mais me faltava realizar ou alcançar uma vez que considerava meu coração bom e não via como fazê-lo se tornar melhor. Compreendia que a enfermidade trazia consigo um convite para uma mudança profunda em minha moralidade, que deveria ocorrer em meu coração, mas não via como fazê-lo se tornar mais bom e puro.

Então tudo se revelou com os seguintes pensamentos:

“A mudança que faltava e que Deus queria para mim era minha conversão.”

Tudo se apresentou com tamanha clareza, pois, de fato a conversão implica uma mudança completa e profunda na forma de conceber a própria vida, Deus, a si mesmo e os demais. A conversão a Jesus Cristo modifica tudo, pois tudo o que antes é deixa de ser enquanto muitas coisas que antes não eram passam a ser.

E foi exatamente este o elemento que ofereci a minha amiga trazido a mim pelo Espírito Santo - elemento de tamanha precisão e grandiosidade para aquele seu momento de dor e entrega a Cristo. **

Nota:

*Ela me contou por telefone quando eu estava na casa de outra amiga devota e estudiosa de Deus. Ao ver minha forte comoção e derramamento de lágrimas disse que eu estava sentindo o sentimento de Cristo por aquela alma, o quanto ele a amava e desejava.

** Esta amiga durante uma cirurgia posterior viveu um momento de entrega absoluta a Cristo e teve um encontro com o mesmo e a partir disto seu quadro foi curado.

Tudo de mim para Deus

Minha cirurgia para colocação da prótese foi aprovada, mas teve que ser cancelada significando mais tempo de espera.

Apesar da ansiedade para me ver liberta definitivamente, tive que mais uma vez me curvar à vontade de Deus. Entreguei a ele dizendo para que eu pudesse então lhe ser útil durante aquele período.

Não estava animada, pois minha testa ficaria desconforme e reta, era isto o que Deus tinha para mim, mas desejava ter aquela página da minha vida virada para poder partir para a próxima. Sentia sede das próximas que se seguiriam.

Notei que em meus testemunhos comecei a apresentar a testa como algo normal e consciente da força que operava nos demais. Minha percepção fora mudando gradativamente de algo que me causava dor para a aceitação e oferecê-la inteiramente à serviço de Deus, o que alegrava a fundo minha alma. Isto fora se dando aos poucos com mansidão e naturalidade dentro e fora de mim.

Ao redigir estas últimas frases invadiu-me forte emoção.

Isso porque tudo de mim deveria ser oferecido para Deus e ser por ele usado.

Não eu, mas o Senhor e sua vontade

Numa manhã ao conversar com a pessoa que ajudava em minha casa em todas as vezes que eu referia a mim como eu isto ou eu aquilo sentia-me fortemente incomodada e via como que uma luz vermelha a piscar dentro de mim relacionada à palavra eu.

Entendi que a palavra eu não cabia mais na minha forma de me expressar em relação mim e as minhas coisas. Era para ser ele. Era para eu submeter tudo o que dizia respeito a mim à vontade do Senhor.

Passou a acontecer desta forma dentro de mim:

Ao falar “eu vou fazer isso”, não era eu quem deveria definir se ia ou não fazer, mas sim antes submeter à vontade do Senhor.

Ao falar “eu acho isso”, eu não deveria achar nada a respeito de algo, mas sim esvaziar-me de qualquer julgamento e submetê-lo unicamente ao Senhor.

Tudo mais que dizia respeito a mim sob forma de pensamento e ação eu deveria antes lhe submeter.

Como se o meu eu devesse desaparecer da minha forma de conceber minhas coisas e me expressar para o mundo para ficar apenas a submissão à vontade do Senhor e que esta imperasse sobre tudo.

Ao “pretender algo”, eu não deveria pretender nada mais, apenas submeter à sua vontade e aguardar nele, abandonando-me às suas consequências.

E quando minha mente começava a vaguear cogitando a respeito de algo, passei a naturalmente freá-la, pois não deveria cogitar a respeito de nada uma vez que tudo e todos pertenciam a Deus tanto no ontem, hoje e amanhã.

Mediante o esvaziamento interior

O não pretender, cogitar ou criar expectativas sobre algo me trouxe enorme esvaziamento interior. Era como se Deus tivesse me livrado de uma carga desnecessária para me ocupar em troca somente dos seus interesses e no aqui e agora.

Assim seguiu acontecendo de modo que fui me acostumando a conversar com os demais na primeira pessoa, mas submetendo tudo em pensamento a ele e somente dando um passo para frente caso se mostrasse para mim ser da sua vontade.

Ouçam agora, vocês que dizem: ‘Hoje ou amanhã iremos para esta ou aquela cidade, passaremos um ano ali, faremos negócios e ganharemos dinheiro’.

Vocês nem sabem o que lhes acontecerá amanhã! Que é a sua vida? Vocês são como a neblina que aparece por um pouco de tempo e depois se dissipa.

Ao invés disso, deveriam dizer: ‘Se o Senhor quiser, viveremos e faremos isto ou aquilo’.

Agora, porém, vocês se vangloriam das suas pretensões. Toda vanglória como essa é maligna”. (Tiago 4, 13-16)

 

Livre de julgamentos

Ao me esvaziar de meus julgamentos a respeito de algo ou de alguém Deus me revelou o quanto estes constituem porta de entrada para o inimigo que, espreitando-nos todo o tempo, acessa-nos para então enlaçar nossas mentes e corações numa rede de perturbações e infrações que muito distam de uma postura sagrada e pura.

Isentando-nos de qualquer julgamento, nos abstraímos dos mesmos depositando-os unicamente nas mãos daquele que tudo sabe alcançando assim paz interior.

Escrava por amor

Maria vinha aos poucos me trazendo almas para que as acolhesse, escutasse e inspirada pelo Espírito Santo oferecesse os elementos de luz do Evangelho de Amor e Libertação de Jesus Cristo. Chegou num mesmo dia a trazer-me uma pessoa na parte da manhã (no parque) e outras duas à tarde (uma bateu à minha porta e outra me chamou para ir a sua casa). Todas eram almas as quais vinha conduzindo pelo caminho de união com os Céus.

Havia sido um dia tão rico pelas mãos de Maria que a noite ao me deitar senti uma necessidade ardente de rezar-lhe o Terço em agradecimento. Estava cansada, admirada pela quantidade de serviço à Deus, mas feliz a ponto de rogar-lhe que me trouxesse mais almas.

A verdade era que quanto mais conhecia esta Santíssima Mãe mais me deslumbrava com sua graciosidade, poder e bondade e mais me curvava e prostrava aos seus pés.

Naquele momento brotou em mim um reconhecimento profundo dela como servidora direta da obra de Jesus Cristo: a primeira e maior de todos os seus servos e lhe pedi que me aceitasse como sua escrava.

Mas como assim, escrava?

Pouco antes havia lido que “pertencemos a Jesus e a Maria na qualidade de escravos” (Tratado da Verdadeira Devoção a Santíssima Virgem, p. 60), momento em que considerei aquele conteúdo bastante distante da minha realidade.

Mas naquele momento tudo se fez.

Maria colocava em meu coração o desejo ardente de oferecer-me a ela na condição de escrava e assim se completou: “... de amor”.

Eu seria escrava de amor e pelo amor a Cristo e à sua obra.

Eu tudo faria por amor e pelo amor.

Até então me colocava diante de Jesus e sua Mãe como serva. Mas dali em diante desejava que fosse na condição de escrava. Tudo faria buscando total esvaziamento de mim e doando-me inteiramente sempre que chamada, com satisfação e sem esperar retorno algum que não fosse a glória de Cristo.

Maria me fez entender que tomando-me como escrava conseguiria fazer através de mim sua vontade e obras e que estas seriam as mais perfeitamente ajustadas à Cristo e às promessas do seu Reino. E não somente para mim, mas também para os demais.

Como não me curvar, louvá-la e abandonar-me à sua condução continuadamente?

Maria oferecia-me a graça de conduzir-me por um caminho sagradíssimo.

Como não nos curvarmos e rendermos inteiramente à sua condução? Como não nos tornar escravos deste imenso amor que esparge dela para todos os lados?

Este livro se fez com a participação das pessoas

Ao escrever este livro Deus me permitiu viver as situações sempre com o olhar fixo nele e colhendo dele os frutos de sabedoria, sem almejar controlar seu conteúdo nem mesmo os que sobreviriam. E neste caminho ele me trouxe pessoas.

Cada uma com seu universo e questões os quais passei a escutar e acolher. Na maioria das vezes suas dúvidas, lutas e problemas se assemelhavam aos meus o que me fazia considerar os meus, por extensão, como deles – motivo que justificava sua inclusão neste livro chegando ao ponto de seu conteúdo não advir somente de mim, mas também de todos que prestaram contribuições.

Compreendi ser isto um reflexo da forma como Deus deseja que vivamos em relação ao próximo. Não sendo a eles indiferentes, mas envolvendo-nos. Como se somente existiremos em Deus se estivermos em união com nossos irmãos fazendo-nos um com eles. 

Num elevado grau de abandono a Cristo

Uma pessoa quis me conhecer após escutar a respeito da minha união com Cristo e do livro.

A primeira pergunta que fez foi quando iria publicá-lo. Respondi que não sabia, pois o livro pertencia ao Senhor e apenas me deixava ser conduzida, de modo que quem sabia era ele e não eu.

Nossa conversa foi agradável e espontânea. Revestiu-se da profundidade que requerem as almas e elevou-se ao altíssimo dos Céus.

Em síntese, referi que:

Não queria, nem pretendia, nem planejava, nem especulava nada a respeito da minha vida, ao contrário, percebia minha mente esvaziada para ocupar-se somente das suas coisas;

Apenas me preocupava do dia presente, não com o de amanhã dado o esvaziamento mental e que a ele tudo pertencia;

Não decidia sobre nada, mas submetia a ele e aguardava sua resposta. Não queria nada para mim, quem tinha que querer era ele;

Não dava nenhum passo sem antes consultá-lo;

Tinha absoluta confiança nele (nos casos por exemplo de que minha cirurgia não desse certo ou que um filho meu viesse a morrer). Estaria tudo bem, pois seria a vontade de Deus para mim;

Vivia meu dia em estado de permanente comunhão com ele;

E em meu coração meu único desejo era servir a sua obra como escrava do seu amor, por amor.

Enquanto falava surpreendia-me do quanto minhas colocações destoavam das convencionais encontradas no mundo e o quanto me encontrava vivendo num elevado grau de abandono a Cristo – que até então nem eu me dera conta.

Falava com assombrosa naturalidade, liberdade e desenvoltura e sentia a força que emanava de cada palavra dado que se respaldavam na forma como vinha vivendo.

Não eram, pois, belas palavras vazias e senti que tinham poder de penetração.

Quanto mais louca para eles, mais de Cristo

Conversando com a babá devota ela referiu à luta que era lidar com pessoas que não estavam no caminho de Deus.

Mencionou que aquela sim era uma verdadeira provação da fé: continuar firme na união com o Senhor ainda que em meio a deboches e humilhações e ainda assim falar do amor a ele (eu mesma ainda não havia avançado neste sentido).

Citou que algumas pessoas chegavam a se referir a ela como se tivesse enlouquecido, ao que respondi: “Quanto mais formos de Jesus, mais loucos seremos para eles”.

Aquela frase abriu nova perspectiva para mim. Poderia concebê-la como instrumento de mensuração significando que quanto mais louca as pessoas me considerassem, mais estava sendo suficientemente de Cristo. E que ele por isso se alegrava em mim e eu podia alegrar-me nele.

Passaram dois dias quando deixei meu filho mais novo na escola. Ao conversar com a dona, cristã fervorosa, ela mencionou que sua cunhada se tornara cristã de um dia para outro, deixando tudo para viver para Deus. Desfizera dos bens para morar num espaço pequeno e simples e em seu quarto havia apenas uma cama, mesa e cadeira. Fazia peregrinações divulgando santinhos e dizia que só não se desfazia do carro pois ainda necessitava dele para cuidar de sua mãe idosa, mas que tão logo pudesse o faria. Interrompeu a fala quando sua filha aproximou e voltando-se para ela, disse: “Não é, filha? Estou falando daquela sua tia”. A jovem olhou para mim fazendo aquele gesto de círculo com o dedo na altura da cabeça como que se estivesse ficado louca.

Não pude conter o sorriso em meu interior. Havia entendido tudo. Alegrei-me verdadeiramente por aquela senhora haver alcançado ser tão do Senhor ao ponto dos parentes a considerarem louca.

Disse às duas que a compreendia perfeitamente e que em meu coração faria também o mesmo caso não tivesse o esposo e os meninos.

Aquilo consistia de fato num desejo latente em minha alma.

Eu, santinha?

Na época da faculdade havia duas colegas com o mesmo nome meu. Eu não tinha afinidade com elas e andávamos em grupos diferentes de amigos. O delas era tido como “desenvolto”, havia bebida, cigarro, entre outras coisas. No meu não havia nada daquilo, focávamos nos estudos e na amizade pelo bem mesmo.

Um dia um dos garotos daquele grupo disse em tom de deboche que eu era a Luciana “Virgem Maria”. Aquilo me feriu afinal, com que direito eles debochavam de mim sendo que eu não lhes fazia mal nenhum? O ressentimento me acompanhou anos depois de formada.

Após meu encontro com Cristo, com Nossa Senhora e a renovação total da minha vida em Deus um dia ocorreu-me aquela recordação e, ao invés de sentir dor por causa dos colegas, senti gratidão a mim mesma por haver sido quem eu era desde aquela época e por havê-los remetido à figura de Maria e suas virtudes. O que antes havia sido uma ofensa, peso e motivo de exclusão passou a ser uma honra – um sinal de que havia desde então estado no caminho certo, tornado por isto belo e grandioso.

***

Ao evangelizar jovens passei a oferecer-lhes esta passagem da minha vida com o intuito de lhes despertar para valorizarem a postura cristã de pureza e se esforçarem para ser cada dia melhores independente do que os colegas pudessem dizer. Aquilo exigiria deles muita valentia e caso viessem a sofrer rechaços por serem tidos como “bonzinhos”, “santinhos” ou “de Cristo” que se mantivessem firmes na verdade sem se afastarem do Senhor com a justificativa de se encaixarem forçada e desconfortavelmente num quadrado em que não pertenciam e que lhes faria pagar um elevado preço mais tarde.

A evangelização do meu filho

Conforme o tempo passava a evangelização do meu filho mais velho foi se tornando cada vez mais delicada.

Se nos primeiros momentos ele a recebeu sem opor resistência, logo começou a rebater dizendo que Deus não existia, que era “igual sonho em que as pessoas acham que é real, mas não existe”.

Fazia-se notória a influência do pai repelindo toda informação que dizia respeito a Deus. Apenas os que vivem semelhante situação dentro do no lar podem compreender quão dilacerante esta dor pode ser.

Sua aceitação de Deus passou a oscilar entre raiva, desdém e amor estonteante – que o fazia correr e saltitar feliz pela casa. Passei a observar suas reações e a entregar as que se opunham a Nossa Senhora no momento que aconteciam.  

Numa manhã ao trocar a fralda do mais novo iniciei uma oração silenciosa a Maria. De repente ele invadiu o quarto gritando “Deus não existe!” e cruzou os braços olhando para mim emburrado.

Em profunda dor olhei para ele e disse mentalmente em oração: “Toma, Mãe, minha dor e meu filho, ele é seu e não há nada que eu possa fazer em relação a isso”.

Mal acabara de dizer e ele saiu do quarto. Retornou com meu Terço na mão, sentou-se no chão e começou a rezá-lo pela primeira vez na vida. Recitou três Ave-marias (com palavrinhas erradas) segurando as bolinhas com olhos fixos em mim e sorrindo. Abaixei no seu nível e lhe disse que ele me fazia muito feliz com aquele gesto.

Naquele momento Maria me dava prova real de que eu podia submeter a ela esta preocupação com meu filho que ela cuidaria disto diretamente.

***

Meus dias passaram a ser assim:

“Dorme com Deus, meu filho”. “Deus não existe!”

“Graças a Deus!”. Ele retrucava: “Graças ao homem!”

Acontecia também de ele dizer “Graças a Deus, né mamãe?” ou “Eu amo Jesus”.

E noutro momento: “Jesus não existe! Nada disso existe!”

Passei a recear que ele viesse a ter raiva de Deus e que isto atrapalhasse sua aproximação do mesmo no futuro por compreender que sua mãe “o trocava por Deus” ao rezar ou evangelizar alguém. Perguntei-me se aquela preocupação advinha de Deus ou do inimigo.

Vinha do segundo com o objetivo de paralisar minha marcha e passei a submeter aquela apreensão à Maria. Que ela me conduzisse ao equilíbrio perfeito entre dar aos meus filhos a devida atenção e cumprir com os outros chamados do meu coração.

***

Outro dia ele se queixou quando comecei a fazer a oração semanal em voz alta, alegando que ia demorar muito. Desejei que ele jamais criasse aversão ao Terço por eu não lhe dar atenção naqueles momentos ou por achar enfadonho. Na mesma hora ele se levantou, abriu a gaveta, pegou seu Tercinho verde e com excelente disposição sentou-se ao meu lado e começou a orar o Terço comigo.

São inúmeros os testemunhos com meu filho neste sentido*.

Passei a viver meus dias acompanhada de certa angústia e sofrimento e Maria sempre sustentando-me de pé, firmando-me na fé e confiança nela, derramando sua doçura nesta minha outra cruz de todos os dias.

Nota:

*Passei a ver acontecer também com filhos pequenos (5 anos) de algumas mães as quais eu evangelizava e que buscavam aproximar-se do Senhor e de Nossa Senhora. Em todos os casos era evidente a presença e condução da Mãe Santíssima no lar agindo, falando e orando pela boca das crianças.

Mamãe, minha rainha

Numa determinada altura este meu filho começou a me chamar de rainha.

Demorei um pouco para perceber que era a forma a qual eu vinha referindo à Maria em meus pensamentos. Meu filho não sabia disto e era clara a presença e inspiração dela nele.

“Mamãe, você é a minha rainha!”. Ele se referia assim nos momentos que me encontrava louvando a Deus, Jesus ou Nossa Senhora; ou em que eu tinha os pensamentos elevados aos Céus em relação a ele, a família, as questões pessoais e ao serviço a Deus; e também quando me encontrava aflita ou em grave sofrimento. 

Certa vez ele disse que ia fazer uma surpresa e trouxe uma coroa de papel desenhada, colorida e recortada afixando-a na minha testa. Disse: “Uma coroa para minha rainha!”

Noutra desenhou-a com perolazinhas, recortou e fixou em mim. Disse a ele que filho de rainha era príncipe e que ele e o irmão eram, portanto, príncipes.

Ele, entusiasmado, desenhou outras duas coroas fixando uma na sua cabeça e outra na do irmão. Brincaram incrivelmente felizes, correndo saltitantes pela casa cada um com sua coroa. Naquela noite papai foi intitulado o rei, mas não se encontrava em casa para participar e desfrutar.

Quando se passa a viver uma vida em Deus seus sinais se tornam tão evidentes.

O poder da meditação dos mistérios do Terço Mariano

Já me referi à oração como poderosa ferramenta de crescimento em Deus. Quanto mais oramos, mais aperfeiçoamos a forma de fazer, mais sentimos necessidade de fazer e mais crescemos em Deus. Isto se deve ao fato de ser o canal direto pelo qual nos conectamos a ele e o deixamos entrar em nossas vidas, se revelar e nos conduzir.

Algo semelhante se deu com a oração do Terço Mariano. Este não consistia apenas em repetir Ave-Marias e contar as bolinhas de forma monótona e repetitiva.

Muito antes pelo contrário. Passou a ser um tempo dedicado para estar na presença de Maria adorando-a, louvando-a e entregando-lhe minhas intenções particulares e as do mundo inteiro. E a cada dezena de Ave-Maria tinha oportunidade de meditar sobre as passagens bíblicas vividas por ela e Jesus chamadas de mistérios.

Ao meditar sobre as virtudes de Cristo e de sua Mãe nas passagens de suas vidas desejava-as para mim e rogava aos Céus que me as concedessem sob forma de graças. Este ato consistia num canal poderoso para ser por Deus transformada e assim ele fazia mantendo-me consciente disto. Deus estava a me transformar.

Cito alguns exemplos de como se dava dentro de mim,  mas compreendendo que existem variações segundo as necessidades pessoais de crescimento:

No mistério da Anunciação do arcanjo São Gabriel a Nossa Senhora em que lhe é revelada a divina gestação, eu meditava sobre sua profunda humildade diante de Deus e a forma como se colocou à serviço do mesmo, rogando que a graça da humildade descesse sobre minha alma.

No mistério da Visita de Nossa Senhora à sua prima Santa Isabel meditava sobre a caridade para com o próximo, rogando a descida daquela graça sobre minha alma. Sentia especial afeição por esta passagem e foram inúmeras as vezes que esta me inspirou a imitá-la, fazendo-me deslocar ao encontro de pessoas em aflição necessitadas de evangelização.   

Jesus nasceu e viveu pobre exemplificando amor à pobreza e desprezo do mundo. Ao meditar sobre este mistério do Nascimento de Jesus em Belém na mais extrema pobreza passei a desejar a pobreza e Deus começou a transformar meu coração no desprendimento dos bens materiais e da riqueza.

Descobri ademais o Espírito Santo dentro de mim a me auxiliar ao longo da meditação de cada mistério fazendo-me rogar a graça da virtude condizente com minha necessidade de crescimento em Deus.

Jesus em um dos mistérios se encontra No templo entre os doutores da lei pregando o Reino de Deus, que se diferia em partes do Antigo Testamento que o povo estava acostumado o que o fazia enfrentar assombros, questionamentos e oposições. Ao meditar esta passagem passei a rogar a graça de sempre evangelizar dentro da verdade e com naturalidade a quem quer que fosse. Não tardei a me perceber fazendo com tamanha destreza, liberdade, firmeza e paz, comprovando que o que não possuía estava sendo-me descido sob forma de graça dos Céus.

Aos poucos passei a ansiar por cada um dos vinte mistérios contemplados no Terço de Maria e pela meditação de suas virtudes. Abrira-me poderosamente para ser transformada por Deus e não havia alcance dimensional para onde aquilo me levaria. Compreendia que não possuía nada a perder e que não havia outro caminho senão seguir adiante.

Foco no presente

Passado algum tempo comecei a perceber que Jesus, estando a frente do meu processo, passara a esvaziar minha mente de movimentos e pensamentos desnecessários. Mas o que seriam estes?

Toda mente se pega não intencionalmente a tecer conjecturas a partir de um pensamento primário, que a conduz por caminhos distantes que muitas vezes divergem do conteúdo originário. Pois foram freios a estes movimentos naturais da mente que passei a perceber em meu interior compreendendo que se encontravam sob a regência de Jesus.

Quanto aos pensamentos primários, Cristo me incitava a permanecer junto a eles sem qualquer tipo de pretensão e especulação tendo em vista que tudo a ele pertencia.

Quanto a mim, apenas o cumprimento de sua vontade no aqui e agora com aferida responsabilidade.

 

Tudo pensando e fazendo na presença de Deus

Aprendi a pensar na presença de Deus, a chamar Deus para estar presente enquanto elaborava os pensamentos.

Nada conseguia fazer sem que fosse na sua presença.

Também quando dispunha de tempo mental livre, ao invés de deixar a mente à reveria para pensar em coisa qualquer, detinha-me apenas na contemplação de Deus sem nada pensar – e ali descansava. Era eu e Deus.

Meu momento favorito era ao dirigir, mas podia fazê-lo durante qualquer atividade e lugar do dia.

 

Fazendo tudo por amor, pelo amor e com amor

Ao me acostumar a realizar as atividades rotineiras, por mais simples que fossem, com sua presença em minha mente, comecei a notar que as fazia sentindo enorme amor por Jesus Cristo.

Passara a realizar tarefas rotineiras amando Cristo.

Ao amá-lo compreendi que era possível fazer o quer que fosse com amor, pelo amor e por amor. Ele me infundia a amar aquilo que estava fazendo por amor a ele.

Quanto minha mente se compenetrava na ação presente esvaziada dos pensamentos desnecessários e amando Jesus, era possível a ele derramar seu amor em tudo que eu fazia.

“Fazer tudo com amor, pelo amor e por amor” – assim estava escrito na parede do hospital em que ficara, frase dita por Madre Maria Teresa de Jesus Eucarístico*.

Assim ia se desenhando para mim o caminho percorrido pelos santos.

Nota:

*Em processo de canonização pelo Vaticano (2019).

 

Para que Jesus seja glorificado

E não apenas isto. Ao concluir qualquer tarefa com ele na mente e no coração passou a surgir-me o seguinte pensamento: “Para que Jesus seja glorificado”.

Passei a realizar as coisas mais simples e cotidianas em sua presença, amando-o e para que ele fosse glorificado naquilo que fazia e através de mim.

Tudo passou a ser para sua honra e glória.

Tudo passou a ser para ele e dele de modo que não havia mais “as minhas coisas”.

As oscilações próprias entre o velho e o novo ser

Ao referir que tudo passou a ser devo me retificar pelo fato de na natureza os processos de crescimento não se darem da noite para o dia, mas sim mediante uma graduação inserida dentro de um processo.

E o crescimento e transformação em Deus não havia como se diferir disto, motivo pelo qual via-me desfrutando das alegrias de ser bem regida por Deus permeadas por momentos em que restava a mim sob minhas próprias sombras, escombros e senso de limitação.

No entanto uma coisa era certa: o caminho que me levaria até minha santificação já havia sido iniciado e devia a mim oferecer-lhe a melhor parte dos meus esforços para que valessem como bem assimilados e merecidos dentro da grande caminhada ao lado de Deus.

A obra é toda dele

Passei a compreender que todas as coisas, situações e pessoas estavam dentro de sua obra e por isso lhe pertenciam – tanto individualmente quanto em conjunto.

O pensamento que passou a surgir em minha mente várias vezes ao dia foi: “A obra é toda dele”.

Como se Jesus se dispusesse sobre tudo quanto existe e consequentemente sobre nós e movesse todas as peças segundo sua vontade e para o bem que desejasse cumprir. E que uma vez compreendido isto eu poderia me abstrair de meus próprios atos e pretensões para deixar-me ser por ele governada inserindo-me neste todo.

Isto trouxe mais lucidez ao enxergar as coisas e situações movidas pela sua vontade tal como peças a se movimentarem trazendo uma ou outra condição sendo todas para nosso crescimento e aprendizado.

A obra era toda dele e um dia completou-se em minha mente que “... a ele retornava em honras e glórias" através de seus filhos despertos e não despertos devido ao fato de seu poder suplantar tudo e estar aquém da nossa melhor compreensão.

 

Eu, parte da sua obra

Deixava os papeizinhos com ambos testemunhos nos caixas e balcões dos estabelecimentos quando senti no coração que deveria abordar pessoas desconhecidas e entregar-lhes. Passei a obedientemente fazer, perguntando-lhes antes se possuíam religião. Estava a fazer o meu melhor e por isso me alegrava.

Até o dia que sentada num banco de praça olhando as crianças brincarem o Senhor revelou ao meu coração que queria que eu falasse sobre ele e o oferecesse aos que se encontravam afastados. Aquilo era bem mais difícil, mas fazia pleno sentido.

Obedeci mudando a forma de abordá-las. Perguntava se aceitavam um testemunho com Cristo estendendo-lhes um. Às vezes mencionava que havia acontecido comigo, o que despertava maior interesse.

O que a princípio pareceu impossível acabou se tornando natural e abordava-as na rua, ponto de ônibus, taxi e estabelecimentos.

Como foste fiel na administração de tão pouco, eu te confiarei muito mais”. (Mateus, 25,21)

***

Outro fato passou a se dar. Em locais com aglomerados humanos por onde transitava fosse pessoalmente ou via internet passei a subitamente enxergar uma enorme quantidade de almas que pertenciam a Cristo, e que ele as desejava.

Era como se tivesse minha lente transformada. Compadecia-me delas em profundo pesar por Jesus ser todo delas e elas o desconhecerem encontrando-se afastadas e indiferentes.

Jesus dispunha em mim seu olhar fazendo-me sentir seu pesar e sede de almas, mostrando-me o tamanho da obra a ser realizada e eu sofria por reconhecer minha impotência.

***

Diante deste sentimento meu uma ou outra vez ele me recordou como que a me consolar, que o papel de salvá-las todas cabia a ele que era o salvador da humanidade e não a mim, e que eu deveria ficar em paz em relação àquilo.

Nestes momentos ele expanda minha compreensão a respeito da dimensão da sua missão junto à humanidade e ao Pai.

 

Ajustando as disciplinas cristãs diárias

Os dias passavam de forma intensa. Eram dinâmicos, ricos em atividades e demandas dentro e fora do lar de modo que desde muito havia se tornado impossível cumprir diariamente com todas disciplinas cristãs que gostaria.

Minha alma tinha sede de muito fazer. Tinha seis livros para ler (quando chegaram outros dois), havia pessoas a serem evangelizadas, Terço a ser rezado, leitura da Bíblia e diário espiritual a ser feito. Escrever este livro deveria ser prioridade. E tudo em meio aos meus afazeres rotineiros.

Aquilo me gerou um sofrimento que me acompanhou por um bom tempo o qual submeti a Deus até compreender que a dedicação ao Alto não se dava através de fórmulas rígidas, mas obedecendo às suas necessidades e prioridades.

Deus me conduziu a deixar que ele mesmo organizasse minhas atividades cristãs do dia conforme seu desejo e necessidade. Conheci sua flexibilidade e condição de abandono a qual deveria me submeter. E com isto encontrei mais paz.

***

Paralelo a isto passei a pedir a Deus pela manhã que me ajudasse a organizar e cumprir com as inúmeras demandas diárias da família, almas, trabalho e casa de modo a fazê-las da melhor forma possível e era belo comprovar o poder de Deus em dispor de tudo com harmonia enquanto lhe oferecia o meu cumprimento.